Mercado

Giovanna Khair Cunha,  que já liderou campanhas digitais de Anitta, Karol G e Alejandro Fernández, analisa a transformação da indústria musical global e explica por que estratégia digital, identidade cultural e conexão com comunidades se tornaram mais importantes do que seguir fórmulas internacionais.

Por: Redação

Durante décadas, a internacionalização da música parecia depender da adaptação de artistas locais aos padrões do mercado norte-americano. Hoje, esse movimento acontece no sentido oposto. Para Giovanna Khair Cunha, estrategista digital radicada em Miami e profissional que atua ao lado de um dos maiores nomes da música latina, Emilio Estefan, a indústria vive uma mudança estrutural: nunca foi tão importante preservar a identidade cultural para alcançar o público global.

Para Giovanna, o novo music business exige uma atuação que vai muito além da divulgação de um lançamento. Hoje, dados, branding, posicionamento e narrativa caminham lado a lado com a criação artística. O desafio dos estrategistas é potencializar a identidade de cada artista sem descaracterizá-la, construindo conexões genuínas com diferentes mercados. A ascensão da música latina e o crescente interesse internacional pela produção brasileira mostram que autenticidade e estratégia deixaram de ser conceitos opostos para se tornarem fatores complementares de sucesso.

“O público quer descobrir culturas, histórias e identidades reais. O desafio agora não é esconder a origem, mas transformá-la em diferencial competitivo”, afirma. “Hoje, existe uma permeabilidade inédita na indústria musical internacional, especialmente dentro da América Latina. Estamos consumindo música e cultura dos nossos vizinhos em quantidades muito maiores que em qualquer outro momento da história; o show esgotado do Bad Bunny em SP e o show de milhões (literalmente) da Shakira em Copacabana são prova disso.”

Segundo Giovanna, o sucesso recente de artistas latino-americanos demonstra que a estratégia digital deixou de ser apenas divulgação e passou a fazer parte da própria construção artística. “O público não consome apenas músicas. Ele consome histórias, valores, comportamento e comunidade. Hoje, uma estratégia eficiente precisa traduzir a identidade do artista para diferentes culturas sem perder sua essência,” afirma.

Ela aponta que o crescimento da música latina e o avanço do funk e do pop brasileiros no exterior refletem uma mudança profunda no comportamento do consumidor. “O lifestyle passou a ser tão importante quanto a própria música. As pessoas querem entender quem é o artista, de onde ele vem e o que representa.”

Na avaliação da estrategista, essa transformação exige uma nova postura dos profissionais que atuam nos bastidores da indústria.

A gestão de imagem não permite mais distância entre artista e público. Existe uma expectativa por autenticidade, consistência e diálogo constante, capazes de construir comunidades duradouras.

Outro aspecto que Giovanna considera decisivo é a aproximação cultural entre os mercados latino-americanos.

Durante sua formação na Berklee, em Boston,  ela percebeu que o Brasil ainda conhece pouco a produção musical de seus vizinhos e, ao mesmo tempo, permanece pouco representado internacionalmente além dos grandes clássicos da bossa nova.

“Nosso país é muito mais diverso. Temos funk, pagode, sertanejo, música urbana e inúmeros movimentos criativos. Existe um interesse crescente por essa diversidade, mas ela precisa ser apresentada de forma estratégica,” considera.

Essa percepção motivou Giovanna a fundar o Brasil @ Berklee, iniciativa criada para ampliar a presença da cultura brasileira dentro da universidade e aproximar estudantes internacionais da produção musical contemporânea do país.

Para ela, o futuro da indústria pertence aos profissionais capazes de unir dados, criatividade e inteligência cultural.

“O trabalho estratégico hoje não é criar personagens. É revelar a identidade do artista de uma forma que faça sentido para diferentes públicos ao redor do mundo.”

Ao acompanhar campanhas internacionais, festivais, desenvolvimento de artistas e projetos ligados a grandes nomes da música latina, Giovanna representa uma nova geração de brasileiros que exporta conhecimento em music business, branding e estratégia digital — mostrando que, na indústria global, a construção de uma carreira internacional começa muito antes do lançamento de uma música.

Formada em Music Business e Songwriting pela Berklee College of Music, Giovanna construiu sua carreira entre os mercados brasileiro, latino-americano e norte-americano, especializando-se em marketing musical, posicionamento artístico e estratégia digital.

Sua visão é resultado da experiência prática adquirida em campanhas para artistas internacionais e no acompanhamento da transformação do consumo musical nos últimos anos.

Antes de integrar projetos ligados ao universo de Emilio Estefan, Giovanna iniciou sua trajetória na agência Ranked Music, onde começou como estagiária e rapidamente passou a liderar campanhas digitais para artistas como Anitta, Karol G e Alejandro Fernández. Também participou da estratégia de divulgação de “Gata Only”, de FloyyMenor e Cris Mj, que se tornou a canção latina a atingir um bilhão de reproduções no Spotify em menor tempo, consolidando-se como um dos maiores fenômenos recentes da música latina. Além disso, trabalhou no desenvolvimento da artista independente Jesse Detor, acompanhando sua participação no Lollapalooza, e atuou como coexecutiva do Start Where We Are Earth Music Festival, ampliando sua experiência em desenvolvimento artístico, festivais e produção cultural.