Imagens: Robson Carlos Silva Gonçalves
Uma das bandas mais representativas do rock brasileiro está celebrando 40 anos do seu primeiro disco. Os brasilienses da Plebe Rude revivem o clássico “O Concreto Já Rachou” e destacam também o lançamento do vídeo/single com a nova gravação de “Até Quando Esperar” e a reedição em vinil enriquecido pelo compacto com quatro demos. Ainda fazem parte do pacote comemorativo concebido pela Universal Music Brasil, herdeira do catálogo da gravadora original, a EMI, um documentário “faixa a faixa” do álbum, com Philippe Seabra (voz) e André X (baixo) conversando com Álvaro Alencar, durante quase uma hora e vinte.
Dessa vez, ambos conversam com o jornalista William Robson, do BDD. A entrevista, via Zoom, contou com os quatro integrantes da banda, Philippe, André e o guitarrista e vocalista Clemente e Marcelo Capucci (bateria). Os caras falaram de todos os bastidores da construção do clássico, dos seus 40 anos e a rotina de shows que ressaltam o álbum.
Para Philippe, “O Concreto Já Rachou” segue atual e seu grito de protesto relevante. E que a verve da revolta nos anos 80 permanece agora atrelada à experiência, aos equipamentos mais modernos e as variadas influências que tornaram o som ainda mais pesado e vibrante. A insurreição da Plebe, de forte influência punk, mas com sonoridade claramente pós-punk, renasce remasterizada, poderosa e mais forte do que nunca.
William Robson (Bolsa de Discos): Vamos falar do aniversariante, o disco “O Concreto Já Rachou”. Nesses 40 anos do álbum, vocês consideram que ele envelheceu bem ou rejuvenesceu bem? Como vocês avaliam?
Philippe Seabra: Envelheceu bem ou rejuvenesceu? Hum… Eu acho que ele não envelheceu, né? Eu já tinha falado isso anteriormente, isso é, assim, como compositor, como artista, “Uau, que legal!”. Assim, são poucos artistas que têm isso no currículo. Mas, como cidadão e pai, a gente fica meio desesperado. Porque você vê, pô, essas temáticas todas atuais. Das duas uma: ou a Plebe era vidente ou o país não mudou. Como não sou vidente, né? Porque se fosse vidente eu teria topado tocar no Legião (Risos) É… então o país não mudou muito, não. Na verdade, é um pouco triste. Essa celebração vem com uma coisa meio melancólica para mim ainda. De saber que, pô, depois de 40 anos, até hoje, a gente tem que cantar essas coisas, sabe?
William Robson: Vamos pensar também na pegada do disco, eu estava vendo também o clipe que vocês estão lançando. Vocês procuram aquela mesma sonoridade punk, né? Mas vocês se consideram uma banda punk? Porque o disco nasce em 86, num período pós-punk, vamos dizer assim. Portanto, vocês se consideram uma banda punk, mesmo com a sonoridade mais sofisticada? Como é que vocês se definem aí com base no som do “Concreto…”?
Philippe Seabra: Eu acho o seguinte: o denominador comum, daquela época, das bandas é o pós-punk. Por algum motivo, o hard rock não pegou no Brasil em termos de mainstream. Olha as principais bandas, né? Todos com o disco de ouro, de Biquini a Titãs, a Plebe. É tudo new wave ou pós-punk, ninguém do hard rock. Você não tinha nenhuma banda “Rock!”, sabe, cantando ou com guitarrista com cabelão. E era a época das bandas farofa lá fora. Era o auge da MTV. Aí o grunge veio em 90, não sei o quê, que atropelou todo mundo. Eu não sei porque, eu queria que alguém me explicasse por que esse segmento não pegou no Brasil. É porque os fãs eram tão xiitas que se recusavam a ouvir em português? Através do pós-punk a gente teve uma linguagem em português. E tem um trecho, mais uma vez vendendo o peixe (tá sabendo do meu livro “O Cara da Plebe – A autobiografia). Eu falo quando a gente saiu do Rose Bom Bom (icônica casa noturna em São Paulo). E a Márcia, que, infelizmente, não está mais com a gente, era uma punk da época, a punk das punks. A gente nunca tinha visto alguém assim… Bota, tatuagem… Ninguém usava tatuagem. Tatuagem de escorpião na orelha, essa era punk. Ela virou para mim e falou assim: “O mundo inteiro acordar e a gente dormir pro dia nascer feliz”, porque a gente estava saindo de madrugada até de manhã. O Rose Bom Bom ia até de manhã. Aí eu fiquei pensando: “Caramba, se a punk das punks, né, de São Paulo, tá citando o Barão, que é a coisa mais oposta aos punks no rock brasileiro… Uma linguagem estava se formando. É isso, então acho que através do pós-punk e da abertura democrática, essas bandas já vinham numa pegada, criou-se uma linguagem brasileira, cara. E virou MPB. Tanto que na lista da revista Rolling Stone dos maiores discos de MPB, a Plebe está lá, junto com João Gilberto, com João Bosco, com o Gilberto Gil. Tá lá a Plebe, cara. Né? Vai entender, né? É MPB, né?
William Robson: Essa relação em associar a Plebe com o punk ou mesmo o pós-punk tem a ver com a crueza da gravação daquela época também do disco, não é? O disco soa sofisticado do ponto de vista de sonoridade e instrumentação, mas também cru dentro de uma proposta de rock que se assemelha ao pós-punk, concorda?
Philippe Seabra: É… sim, é. Isso a gente conseguiu graças ao Herbert [Vianna, dos Paralamas], que, lembra, foi a primeira produção dele. A gente gravando numa mesa Neve, assim, gravando igualzinho aos gringos. A única diferença eram os técnicos de som. Porque os técnicos estavam vindo da onda mpebista da década de 70. Então eles não tinham muita técnica, eles não sabiam. Pegavam o microfone mais caro e colocavam na frente do amp. Pegavam o microfone mais caro e colocavam na caixa, né? Porque, ué, é mais caro, é assim que grava MPB, porque, lembra, MPB era tudo baixinho, quietinho, não sei o quê. E aí chega esse som. Ninguém sabia o que estava acontecendo, a imprensa não sabia o que estava acontecendo. Os técnicos de som, as casas de show. Quando a gente fazia show em ginásio, era tudo ginásio com telhado de zinco, ninguém sabia o que estava acontecendo, como regular. Essa geração inteira estava aprendendo. Os técnicos estavam aprendendo, as gravadoras estavam sabendo trabalhar esse segmento… aprendendo a trabalhar e a gente estava crescendo em público. Eu comecei na Plebe com 14. Com o “Concreto Já Rachou”, eu já gravando, tinha 18. Então a gente estava aprendendo. Aí veio o estouro do rock brasileiro. Isso não vem de um vácuo, né?

William Robson: E essa onda da Plebe atual. Ou seja, não tão atual porque o Clemente já tá há um tempão. (Risos) Acho que o Marcelo Capucci é o mais recente…
Philippe Seabra: Ele é… ele é o bebê, ele é o bebê.
William Robson: É, né?
Philippe Seabra: Há quanto tempo? O Marcelo tá há 16 anos, né, ô… Capucci?
Philippe Seabra: E o Clemente vai fazer 22 anos na banda.
Marcelo Capucci: Eu completo 15 anos, efetivamente no dia 26 de julho. Falta pouco tempo.
William Robson: 15 anos. O Clemente já tá há mais tempo porque ele tocou em Natal (no Mada), né?
Clemente Nascimento: Eu tô há 22 anos.
William Robson: Portanto, queria pegar esta sonoridade atual da Plebe, com esta galera que reformulou o som da banda, deu sua cara. Com o Clemente, traz aquela pegada mais punk mesmo. O Marcelo impõe agora também nas levadas da Plebe. Como vocês avaliam este novo som da Plebe, do O Concreto Já Rachou, 40 anos depois com essa formação?
Philippe Seabra: Bem, pelo menos naquela época, cara, eu não era chamado de “coxa branca” e de “pastel de catupiry”. Os outros dois tinham mais respeito nesse aspecto, né? Mas fora isso… (Risos)
Marcelo Capucci: Aí, Clemente! (Risos)
Clemente Nascimento: É… cara, mas na verdade, o que a gente faz é manter o espírito da Plebe. Eu ouvi o primeiro show da Plebe em São Paulo. E aquela sonoridade ficou impregnada. E a postura da banda naquele momento. Era o momento nascedouro da banda, que é legal, né? Então a gente procura manter isso.
William Robson: Vi que isso tá bem presente no novo clipe também, né? Lembra muito a Plebe de 86, né? Eu vi que vocês tentaram manter essa característica, mas vocês deram uma modernizada, passaram um penteado, né?

Clemente Nascimento: É, isso é uma coisa do verniz do tempo, né? Não tem como você voltar para trás. Então o amp hoje é mais moderno, a guitarra você tem a captação melhor, a gente toca melhor… O disco da Plebe é maravilhosamente bem gravado, o Concreto, só que é de 80.
Philippe Seabra: Mas a guitarra… a guitarra é a mesma.
Clemente Nascimento: É.
Philippe Seabra: A sua. A minha não.
Clemente Nascimento: A sua, a minha não. A sua é porque você já ganhou uma Gibson logo de cara, eu não. (Risos)
Philippe Seabra: Ganhou não. É que você leu meu livro, eu ralei muito para conseguir isso aí, não vem não.
André X: Pô, tá em competição de guitarra agora é? (Risos)
Clemente Nascimento: É. (Risos) Mas assim, ele entendeu. Mas o que eu tô falando é que a captação, a modernidade dos estúdios, os timbres, a gente consegue timbres hoje que a gente não conseguia. Eu estou usando Mesa Boogie que, na época não tinha nem que quisesse tirar esse timbre. Mas era o som que a gente sonhava.
Philippe Seabra: É que estamos preservando a essência da sonoridade da época. A gente tem um clima de banda assim que, infelizmente não tem como se esconder quando foi meio dramático. Mas, hoje está um clima muito bacana, uma amizade, cumplicidade, sabe? Coisa que não tinha tanto naquela época. A única diferença mesmo que eu sinto é que, na formação original da Plebe, eu não era chamado de “coxa branca”, de “pastel de catupiry”. Tá bom? (Risos) Pelo menos isso, né?
Marcelo Capucci: Não vai para essa seara não, cara. (Risos)
William Robson: E quanto ao Herbert Vianna? Ele já tinha participado também na produção, fez uma ponta também em “Minha Renda”, no disco. Agora faz os backing vocals, guitarras no clipe novo. Como é que foi aí o contato para convidá-lo novamente para participar desse projeto?
Philippe Seabra: É pela história. Engraçado, 40 anos depois a gente está na mesma sala, o Jacques Morelenbaum (violoncelista e arranjador). Pô, olha só, Jacques Morelenbaum, rodou o mundo com Tom Jobim, tocou com o Sting. Os Paralamas nem se fala. A gente já rodou para caramba por aí também. É uma vivência toda, então isso para mim dá mais dramaticidade. A gente tocando a música de novo naquela sala. É como o Clemente falou, o verniz do tempo, né?
William Robson: Agora que eu estou vendo o André X aí, não tinha visto. Tudo bem?
Philippe Seabra: Ah, o André chegou agora. O Herbert sempre esteve, desde a primeira gravação ele levou a gente para a EMI. Quando a gente estava ensaiando aquele retorno, ele é que insistiu pelo disco ao vivo.
André X: Eu tinha esquecido disso, é verdade. Ele que arrumou espaço na gravadora, botou os fãs lá dentro, apresentou a banda. Então aquele disco ao vivo é um puta disco bem gravado ao vivo. E agora nos 40 anos do O Concreto Já Rachou, topou ir lá, gravar, passar uma tarde toda, o que não é fácil, cara.
Philippe Seabra: Eu acho que a Plebe é o lado mais hard que os Paralamas têm, mas que o Herbert também nunca investiu muito porque não é bobo, né? Paralamas têm esse lado todo mais reggae, tem o lado muito romântico. Você não veria a Plebe cantando “Seu exército invadiu meu país”, coisas assim, você não veria essa temática. E o Herbert fazia isso muito bem, tanto que ressoou com a geração inteira. Mas os Paralamas, ao contrário das outras bandas mainstream cariocas, tinham o lado de verve política muito forte. E isso é porque ele viveu em Brasília. Ele não começou tocando em Brasília, ele tocava sozinho, mas a banda não. Os Paralamas é do Rio, mas ele passou por Brasília. Então acho que a Plebe, dentro do repertório dele, meio que ajuda, meio que preenche esse espaço. Você vê músicas como “O Beco”, “Alagados”, que é uma obra-prima, sabe? É… tem umas músicas mais fortes dele, né? “Luís Inácio (300 Picaretas)”… Forte pegada política também.
André X: “Luís Inácio (300 Picaretas)”, que foi censurada.
Philippe Seabra: É, foi censurada. E quando o Herbert, em 95, foi proibido de tocar a música, ele tocou “Proteção”. Então tem uma simbiose ali. Eu já vi vídeos dos Paralamas antes da gente descer para o Rio, eles já tocavam, tipo, “Veraneio Vascaína” numa versão, pasmem, tipo Gang of Four, em 83. Então ele tinha isso nele. Herbert é um cara também muito safo em termos de mercado. Falou assim: “Bem, eu não posso calcar minha carreira inteira em cima desse tipo de som, mas eu tenho a Plebe que pode fazer isso por mim”. E eu até brinco no meu livro. A Plebe fazia, se ferrava, ele ria… Ajudava a apadrinhar e se sentia bem. Aí voltava para a estrada lá, os mega shows que eles faziam, entendeu?

William Robson: É como diz aquela famosa frase: “Já sei o que fazer para ganhar muita grana. Vou mudar meu nome para Herbert Vianna”. (Risos)
Philippe Seabra: Que banda começa já sacaneando o cara principal do rock brasileiro? E das duas uma: ou ele me enchia de porrada ou ele apadrinhava a banda e peitou. De repente ele tentou anular na fonte (Risos) Mas ele peitou e da mesma maneira que a gravadora e o Chacrinha, cara. Pô, a gente falava mal de gravadora, a gravadora peitou. A gente falava mal do Chacrinha, o Chacrinha peitou. Não é que foi uma aposta que a gente fez, era a gente, era o escorpião cabeceando o rio em cima da tartaruga, só que a gente ficava tentando afundar a tartaruga o mais rápido possível. Mas que bom que, por algum motivo estranho, isso ressoou com uma plateia e… e olha aí, 40 anos… 45 anos depois a banda tá aí, até hoje.
William Robson: Esse relançamento do “Concreto…” , o disco passou por remasterização? Porque eu vi tem um compacto em vinil também, né?
André X: O disco foi remasterizado.
Philippe Seabra: Não remixado, remasterizado.
André X: Remasterizado. Então ele está com uma sonoridade, espero, mais forte e tudo. Ele vem com um compacto, e esse compacto é as demos que a gente gravava na época. Então, as demos só tinham em cassete, foi feito todo um trabalho de restauração daquele som para tornar bom para mostrar para o público. Então é bacana que o fã que comprar vai poder ouvir como eram as músicas que a gente tinha feito.
William Robson: Pegando esse gancho também. Vocês vão fazer alguma turnê? Vêm para o Nordeste? Tem uma perspectiva nesse sentido?
André X: Cara, a Plebe toca onde chamam a gente. Se chamarem para o Nordeste, a gente vai lá e toca. (Risos)
William Robson: Mas para celebrar especificamente o disco?
André X: Sim, é… Claro, o show é esse, é 40 anos do O Concreto Já Rachou. A gente toca na íntegra o show.
Philippe Seabra: É que nem o Clemente falando “realmente as coisas mudam”, o show está muito mais sofisticado, a gente tá agora sincronizando vídeo, né? E… tá muito sofisticado o show, equipe técnica toda, equipamento novo, não sei o quê, mais a essência continuou a mesma coisa. É a boa e velha Plebe, talvez com uma… uma casca…

William Robson: Mas é aquilo que o Clemente falou, né? É a experiência, galera tocando melhor, tudo conta, né?
Clemente Nascimento: É, isso é bom. Eu faço música ruim para pessoas ruins. (Risos)
André X: Esse negócio de turnê, cara, é que não existe turnê no Brasil. Essa turnê que a gente conhece, que a gente ouve assim, por exemplo, “turnê do… sei lá, do The Cure”, cara, você já sabe um ano antes que eles vão começar em tal cidade, tudo planejado lá. Cara, o artista brasileiro toca onde tem show. Pode ser sexta em Pelotas, domingo em Campinas, segunda-feira em Natal, entendeu? É um ida e volta. E esse seria o fim de semana louco, na mesma linha, né? Mas não é… é uma coisa incrível. Não há infraestrutura de se fazer turnês mesmo, sabe?
Philippe Seabra: É, a gente pegou o final com o Concreto… No Nunca Fomos Tão Brasileiros, o segundo disco, que, por sinal, vai fazer 40 anos ano que vem, aí sim vai ser vai ser relançado o disco. É… a gente pegou o finalzinho dessa era de caminhão, equipe de 30 pessoas e ônibus seguindo o caminhão, não sei o quê, montando em cada estrada. Mas não tem mais isso. Também o público está renovando, está se criando espaços novos. Assim, motoclube não tinha, eu não me lembro de motoclubes organizados, que é um circuito enorme. isso é meio novo para a gente.
William Robson: Vocês estão tocando agora nesse para esse tipo de público, para um público mais jovem que consegue entender o som de vocês?
Philippe Seabra: O público na frente, cara, você vê às vezes é um bocado de gente de idade, sabe? Mas, a gente está vendo uma molecada no show e… mas não são os filhos desse pessoal, é um pessoal da internet, são pessoas curiosas que esbarram, veem um vídeo do Marcos Mion malhando ao som de Plebe, aí ele procura a banda e descobre um universo inteiro, sabe? E é bacana isso, tem muito fã que está descobrindo o catálogo inteiro através de uma música ou de outra. Ó, tem fãs que vão ficar assim: “Espere aí, 45 anos de banda, o que é isso?”. Aí o cara vai ouvir, aí vai entender por quê. Isso é muito massa, então aí a internet aí tem esse lado positivo: conhecer e se aprofundar.
William Robson: Eu percebi também o seguinte: nos 40 anos do Concreto Já Rachou, como é o show que vocês estão promovendo. O disco é um EP, são poucas músicas. Então como é que é o setlist do show de vocês para dar conta? O Clemente também canta e também participa dos vocais da banda. Aí, vocês mesclam com músicas dos outros discos da Plebe? Vamos dizer, os Inocentes entram também aí? (Risos)
Philippe Seabra: A gente enfia os Inocentes quando a gente vê que alguém da Caieiras está chegando, a gente toca Inocentes rapidinho, não sei o quê, e depois volta para a Plebe. (Risos) É e lembra que o Clemente canta e encanta, então é diferente, né? Então, claro, a gente tem vários hits, toca músicas de outros discos. O show, claro, está centrado em cima do Concreto. Uma ou outra tem uma roupagem diferente. Mas o mais legal, por exemplo, músicas como “Johnny” com vídeo sincronizado. Agora é mais acessível e a gente tá conseguindo, que antigamente você precisava de uma equipe inteira.. Hoje em dia a gente tem uma maquininha que faz isso e toca vídeo, sincroniza o som e tal. Eu ficava meio frustrado porque eu via artistas sertanejos e tal com uma estrutura e telão. Falei: “Poxa, cara, imagina isso num contexto de rock?”. É claro que a gente não tá com telão de 200 mil metros quadrados. Mas é muito bacana ter esses recursos. No nosso caso, a gente não está tentando desviar a atenção da música ruim para servir de entretenimento. A gente acrescenta algo que a gente acha que seja legal. Então o rock merece ter esse nível de produção também. E o rock brasileiro finalmente chegou, o rock brasileiro tá quase com o mesmo nível de produção de show sertanejo. Isso é bom, todo mundo ganha com isso.
André X: Acho muito interessante a tua pergunta sobre o Clemente. Porque se você pensar, cara, o Clemente já é parte da Plebe hoje há mais tempo do que a formação original. Mais tempo do que o Jander (Bilaphra), mais tempo do que o… A Plebe sempre contou com dois vocais, duas guitarras. A gente gosta muito de trabalhar essas coisas das duas guitarras, dois vocais. Foi o que faltou quando a gente virou um trio, né? Eu acho que faltou essa… essa…
Philippe Seabra: Duo.
André X: Duo, quando a gente virou um duo, na verdade.
Philippe Seabra: É, no disco…
André X: O fã está pedindo o aniversário. Aí eu sei que a gente tem que retomar, eu sei, Capucci, eu sei. Mas, assim, o Clemente é ótimo, canta, não só canta como manda.
William Robson: Como na música “Brasília”, são dois vocais ao mesmo tempo Quem faz agora?
André X: Os dois que estão aqui.
William Robson: Os dois, né? Philippe e Clemente, tá certo.
Clemente Nascimento: Porque assim, William, qual é a dificuldade da Plebe para arranjar uma voz para substituir o Jander? É um cara que cante e toque guitarra, né? Porque a Plebe sempre teve dois vocalistas. Então quando eu entro é justamente para cumprir essa função. Fechar esse espaço.
Philippe Seabra: Mas não foi uma coisa arquitetada assim: “Ah, vamos ter dois… vamos…”. Foi acontecendo. Aí acabou virando. O Ameba foi o primeiro cantor, mas aí eu comecei, depois de “Proteção”, a cantar e eu estava sentindo um pouco falta de mais melodia. Porque o Jander tinha uma voz mais monocromática, extremamente forte, muita presença no rock brasileiro. Mas eu estava sentindo um pouquinho falta de melodia. Aí o Clemente supre essa lacuna.
William Robson: Na cozinha, ainda temos a pegada do Capucci, mas já passaram outros bateras na Plebe. Até o Txotcha, do Maskavo Roots?
André X: O Txotcha foi um fundador… Foram três bateristas que passaram pela Plebe. Não, na verdade, acho que tem mais. (Risos)
William Robson: Mais?
Philippe Seabra: Márcio… É o Márcio Romano que tocou um tempo quando o Guto saiu. O Gominho por um show. (Risos) Bateristas crescem em árvore, por acaso.Não, calma, não, não, não. O Capucci é flamenguista, mas ele tem uma coisa legal que cresceu ouvindo Plebe (risos). E o mais engraçado, ele fala que se inspirava nas baterias da Plebe. Até aí não estou errado, né, Capucci?
Marcelo Capucci: Não, até porque era o som que a gente ouvia quando era… Quando esse disco foi lançado eu tinha 9 anos, eu ouvia esse disco, assistia os caras tocando na rua. E você falou do lance do ao vivo e a gente precisa registrar, porque já tem 15 anos tocando com o André, que é o meu baixista, né? E isso é muito importante, né, cara? A gente tem dois vocais, duas guitarras e tal, um baixo e bateria. É a alma. Então, a gente tem uma simbiose muito forte tocando junto. Você vai ver isso aí no clipe que a gente gravou com o Herbert e com o Morelenbaum. O Álvaro dirigiu a gente super bem. Mas isso é fruto do nosso play tocando ao vivo. A gente já toca há muito tempo junto, é importante para caramba a gente ressaltar isso. Eu acho legal para caramba as formações clássicas da banda. Mas, cara, a caravana tem que continuar. A gente respeita e tem o maior orgulho daquele início, daquele disco, daquele momento. Mas a gente está colocando a nossa voz, as nossas baquetas e levando isso para frente. Isso é legal para caramba. 45 anos, não posso deixar de registrar meus parabéns aí, Philippe Seabra e André X, cara. Uma admiração que eu tenho por vocês que é absurda. Eu acredito que o Clemente comunga disso comigo também, porque 45 anos não são 45 dias, meus irmãos. Continuem, porque vocês estão fazendo um puta trabalho.
William Robson: E eu só queria agora a última pergunta para não ocupar mais vocês. O que é que vocês estão ouvindo atualmente em termos de disco?
André X: Cara, nesse último domingo teve jogo do Brasil, daí eu estava na casa do cara que ele falou assim: “Olha, eu tenho uns discos aqui para vender”. Daí eu fui ver, ele tinha o “It’s Alive” do Ramones lacrado.
Philippe Seabra: Uau! Lacrado?
André X: Lacrado, cara! Daí, pô, os caras têm que que ter troco para 100. (Risos) Ele me vendeu e eu… eu botei para rodar. É uma coisa tão antiga… Mas, cara, como o Ramones era bom ao vivo. Pô, era muito, muito bom.
Philippe Seabra: É, eu conheci Ramones mais nessa fase e do “Road to Ruin”. Aí quando fui ouvir os primeiros parecia tão lento: “One, two, three, four…”. Engraçado. Porque a banda vai evoluindo também, né?
André X: Então, eu ouço coisas antigas também, que a gente ouve da adolescência, ainda ressoa bastante. Mas tem muita coisa nova aqui. Hoje em dia com YouTube, Discogs e Bandcamp você sempre consegue garimpar umas coisas.
William Robson: Philippe, você está ouvindo o quê?
Philippe Seabra: Cara, sabe o que é engraçado? Eu estou ouvindo e eu espero que a banda não fique zangada com isso. Eu tô ouvindo muito rock progressivo, cara. (Risos) Mas eu não fico também ouvindo, assim, mas é uma coisa que eu vejo no YouTube, então…
André X: Não fica ouvindo porque as músicas são meia hora, né? (Risos) Não, só ouve umas duas músicas aqui. (Risos)
Philippe Seabra: No ensaio a gente começou a tocar umas coisas meio atemporais, aí virou… Plebi de Patrin, né? (Risos) Então tem umas coisas loucas rolando e viva o YouTube! Eu uso o YouTube, por quê? Porque o YouTube é o único lugar que eu consigo comprar e encontrar os discos exóticos que eu gosto mesmo. Sim, se você quer encontrar aquele lado B do The Damned, você não vai encontrar em nenhum lugar, só vai encontrar no YouTube.
André X: Comsat Angels.
Philippe Seabra: Comsat Angels não existe em lugar nenhum. Você encontra lá.
William Robson: Se gostar, compra o disco, né? (Risos)
Philippe Seabra: É.
Philippe Seabra: Eu posso responder pelo Capucci, é Cássia Eller Acústico e Living Colour.
Marcelo Capucci: Living Colour sempre ouço, mas eu tenho passado por umas discografias que meu filho tem 9 anos, aí ele quer ouvir umas coisas. Aí hoje até estava vendo sua camiseta, a gente ouvindo o Superunknown do Soundgarden, que é um baita disco. Ele não gosta, ele quer falar: “Não, vamos botar a música aí do Roblox”. (Risos)
Philippe Seabra: Você sabia que a Plebe chegou a tocar ao vivo “Rusty Cage”? A gente jogava “Rusty Cage” ao vivo.
Marcelo Capucci: Olha aí, tá vendo?
Philippe Seabra: Exatamente.
William Robson: E Clemente, o garimpeiro dos sons novos? Fala aí, Clemente. (Risos)
Clemente Nascimento: Ah, estou ouvindo um monte de coisa. Twenty One Children, que é uma banda da África do Sul, três moleques, só não tem baixo. Três moleques punk. Três pretinhos punk. Um disco novo do The King Blues, que eu acho do caralho. Tem o Radkey, que lançou uma música nova. Tô vendo o clipe aqui enquanto vocês estavam falando, que é bem legal. Ah, tem um monte de banda nova. Eu gosto de ouvir coisa nova também. Eu gosto de ouvir as coisas velhas, mas eu… eu gosto de sangue novo também. E de sons estranhos. Sim. É… Tem aquela banda de japonesa, Otoboke Beaver, né? Que são quatro meninas e tal, uma banda feminina. É bem legal. Tocaram aqui em São Paulo no Cine Joia. Mas fui ver o Red Cross agora, faz pouco tempo, que é uma banda velha, De punk, foi virando psicodélica e tal. E foi um show maravilhoso. Vou mesclando coisa velha com coisa nova.
Philippe Seabra: Se você tivesse lido meu livro, eu tenho uma história engraçada com o cara do Red Cross. Eu passei a tarde com ele, dois anos antes dele morrer de overdose naquela mesma casa. É… eu fiquei na cervejinha lá, o pessoal tava fazendo umas coisas mais pesadas, só batendo papo, descendo. É… Red Cross, é. É, dois anos depois, morreu.
William Robson: Poxa. Que coisa! Bom, pessoal. Obrigado pela conversa. Espero que voltem ao Nordeste
Philippe Seabra: É mais difícil a gente subir para aí, que é uma pena, porque as passagens aéreas estão um absurdo, cara. Às vezes, tipo, é R$ 5.000 por pessoa, a gente viaja em 10 pessoas. Fica muito caro.
André X: Acho que tem que ter uma série de shows, né? É.
William Robson: É, tinha que ser uma série, né? Mas vamos ficar acompanhando aí, vamos ficar acompanhando.
