Álbum

Luck… or Something já começa diferente por ter Hilary assinando todas as composições, algo inédito em sua carreira. É também o primeiro álbum em que a artista explora com profundidade sua vida atual

Por: Davi Nícolas, especial para o BDD

Depois de perder Britney Spears, Christina Aguilera, JC Chasez e Justin Timberlake para a Jive, RCA e BMG (respectivamente), a Disney bateu o martelo e decidiu que não daria mais nenhuma sensação pop adolescente de mão beijada para ninguém. Foi assim que Hilary Duff virou a primeira Disney Girl, apresentada musicalmente ao mercado no filme que conclui Lizzie McGuire, um dos maiores acertos do Disney Channel, e que tem seu ápice famosamente situado numa premiação musical que acontece dentro do Coliseu, em Roma.

O Paolo não cantou pra gente, mas Hilary encantou nossos ouvidos com What Dreams Are Made Of e, desde então, não saiu das nossas playlists. E após uma década de pausa na carreira, e talvez motivada pelo atual marido, Matthew Koma, que já trabalhou com Britney, Shania Twain, OneRepublic e outros, o anúncio de seu retorno foi feito. Londres, Paris e Tóquio foram palco deste “acordar”, que nos entregou um dos discos pop mais sólidos e interessantes do ano.

Luck… or Something já começa diferente por ter Hilary assinando todas as composições, algo inédito em sua carreira. É também o primeiro álbum em que a artista explora com profundidade sua vida atual. Se no passado a queridinha da Disney cantava sobre como os sonhos eram feitos, que chegou a hora de voar ou que quando você a toca ela sente faíscas, hoje ela abre seu coração e reflete sobre relacionamentos, família e crescer.

Weather For Tennis, música que abre o disco, já começa com uma pedrada: “I’m a seasoned apologist / For the people I love / I’m an amateur psychologist / Key to everyone’s handcuffs”. Discutindo um relacionamento conturbado em que ela nunca pode ganhar um argumento, até que chegamos em Roommates, em que ela se vê presa na relação que esfriou e eles mais parecem colegas de quarto.

We Don’t Talk é uma resposta aos rumores que tomaram as páginas de fofoca com teorias da conspiração sobre o status atual de seu relacionamento com sua irmã. Future Tripping entrega uma produção divertida enquanto mostra que Hilary é gente como a gente e está sempre preocupada com cenários futuros e hipotéticos.

Mas uma das minhas canções favoritas é também o maior e mais impensável encontro da história do pop 2000: Growing Up faz citação de Dammit, o primeiro single internacional do blink-182 lá na época do Dude Ranch (1997), trazendo a ponte da música para o lado pop atual. The Optimist é uma das grandes surpresas, pois é a faixa em que Hilary se mostra mais vulnerável: imaginando como seria se ela tivesse um pai presente e que demonstrasse seu amor por meio de afeto, ela conclui que mesmo estando distante dessas coisas, ela prefere continuar na esperança de que um dia elas possam virar realidade.

Adult Size Medium, faixa que encerra o disco, é uma reflexão sobre como toda a nossa geração lida com crescer. “The twenty year old me is still in here / I’m waking up to a dream sequence / Sometimes I can’t see me in it” elucida como às vezes a vida parece que tem passado tão rápido diante de nossos olhos, e a gente está tão no “automático” que parece que nem dá tempo da gente se situar dentro do que está acontecendo.

Um disco para quem ainda acredita em trabalhos coesos e que não parecem uma playlist aleatória e com composições que evidenciam, junto dos vocais, o quanto Hilary amadureceu e se tornou uma compositora competente. Além disso, a produção de Matthew e Brian Phillips deixa tudo amarradinho e com o appeal sonoro para agradar o mundinho comercial. Luck… or Something é tão gostoso que o conjunto da obra acaba ofuscando o lead single, Mature, e ressalta em alto e bom som aquele velho ditado: panela velha é quem faz comida boa.