Retorno

Produzido por Luiz Carlos Maluly, responsável pelo compacto “Heróis”, single chega em 30 de julho pela Algohits e antecipa o primeiro disco oficialmente distribuído pela banda desde “Electro Acústico”, de 200

Por: Redação

Imagem: Alexandre Wittboldt

Há 26 anos, a banda ZERØ não coloca no mercado um novo álbum com distribuição fonográfica. Esse intervalo começa a chegar ao fim com “Labirinto 21”, single que será lançado nas plataformas digitais em 30 de julho, às 12h, pela Algohits. Liderado por Guilherme Isnard desde 1983, o grupo abre com a faixa uma nova etapa autoral e prepara seu primeiro disco comercial desde Electro Acústico, editado pela Sony Music em 2000.

O período, no entanto, não representa uma ausência completa de músicas ou projetos. Em 2007, a banda desenvolveu Quinto Elemento, trabalho que integra sua história, mas não recebeu lançamento comercial, distribuição fonográfica ou disponibilização no streaming. Outras composições chegaram aos fãs por meio de shows, registros audiovisuais e lançamentos pontuais.

O marco do próximo álbum está justamente nessa diferença: não se trata de afirmar que todas as canções são desconhecidas pelo público, mas de reuni-las, pela primeira vez, em um trabalho oficialmente lançado e distribuído. “Quando Esse Mal Passar” e “Voar e Não Olhar Para Trás” tiveram uma breve passagem pelo streaming, enquanto outras faixas apareceram em projetos como a live session AudioArena Originals. A maior parte desse repertório, porém, nunca integrou um lançamento comercial da banda. O disco também contará com material novo.

“Labirinto 21” atravessa essa história. A música foi apresentada originalmente em 2018, durante a AudioArena Originals, e permaneceu conhecida pelo círculo mais próximo de fãs. Agora, ganha sua primeira versão oficial de estúdio, com produção e tratamento sonoro desenvolvidos para inaugurar o novo momento do ZERØ.

A gravação reúne os mesmos músicos que interpretaram a faixa naquela sessão e acompanham Guilherme Isnard desde 2017: Daniel Viana, responsável pela guitarra e pelos arranjos; Nivaldo Ramos, no baixo; Caius Marins, nos teclados; e Gustavo Wermelinger, na bateria.

Com guitarras em primeiro plano, melodia envolvente e refrão marcante, “Labirinto 21” recupera a intensidade dramática que atravessa a obra da banda, mas evita transformar o passado em simples exercício de nostalgia. A identidade construída pelo ZERØ nos anos 1980 permanece reconhecível, agora incorporada a uma produção contemporânea.

O reencontro com o produtor de “Heróis”

A produção musical é assinada por Luiz Carlos Maluly, responsável por “Heróis”, primeiro compacto oficial do ZERØ. Mais de quatro décadas depois daquela gravação, o produtor volta a trabalhar com Guilherme Isnard em um lançamento que conecta diretamente a origem fonográfica da banda ao seu retorno ao formato álbum.

Ligado a trabalhos importantes da música brasileira, incluindo projetos de RPM, Metrô e Tokyo, Maluly participou de um período decisivo para a consolidação do rock nacional. Guilherme define o reencontro entre os dois momentos de maneira direta:

“É um flashback da gravação do compacto ‘Heróis’.”

A base instrumental de “Labirinto 21” foi registrada por Roney Bispo no Eco da Pedra Studios, espaço de Gustavo Wermelinger localizado em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Os vocais foram gravados no Centro Artístico Maluly, em São Paulo.

Guilherme Canaes também participou da gravação e assina a mixagem e a masterização, realizadas no HAL9000CANAES. O single chegará acompanhado de um videoclipe que amplia visualmente a atmosfera de procura, deslocamento e transformação presente na composição.

Quando o fim também indica um começo

O título “Labirinto 21” aproxima duas imagens aparentemente contraditórias. O labirinto representa perda, procura e caminhos que se cruzam. O número 21 remete ao Arcano XXI do Tarô de Marselha, “O Mundo”, associado à conclusão de uma jornada, à integração das experiências e ao fechamento de um ciclo.

A faixa nasce desse contraste. Mesmo quando um percurso parece concluído, novas possibilidades continuam surgindo. A ideia dialoga diretamente com o momento do ZERØ: depois de revisitar sua história e celebrar quatro décadas de repertório, a banda passa a usar a própria memória como ponto de partida para novas criações.

A escolha de 30 de julho de 2026 também participa dessa construção conceitual. Na interpretação pitagórica preparada para o projeto, a soma da data resulta no número mestre 11, tradicionalmente associado à intuição, à criatividade e à abertura de novas perspectivas. A referência conecta o título, a música, a identidade visual e o momento artístico do grupo.

Do pós-punk dos anos 1980 ao novo álbum

Formada em São Paulo, em 1983, a banda ZERØ nasceu do encontro de Guilherme Isnard, ex-integrante dos Voluntários da Pátria, com músicos vindos do Ultimato. A primeira formação reuniu Fabio Golfetti, Nelson Coelho, Beto Birger, Claudio Souza e Gilles Eduar.

Após a dissolução daquela escalação, alguns de seus integrantes participaram da criação ou formação de grupos como Violeta de Outono, Nau, Dialeto e Luni. Guilherme reorganizou a banda ao lado de Eduardo Amarante, Ricky Villas-Boas, Freddy Haiat e Athos Costa, estabelecendo a formação responsável pela projeção nacional do ZERØ.

Lançado pela EMI-Odeon em 1985, o EP Passos no Escuro apresentou músicas como “Agora Eu Sei”, com participação de Paulo Ricardo, e “Formosa”. O trabalho ultrapassou 100 mil cópias e conquistou Disco de Ouro.

Em 1987, a banda lançou Carne Humana, seu último álbum comercial formado integralmente por músicas inéditas. O repertório trouxe faixas como “Quimeras” e “A Luta e o Prazer”. No ano seguinte, o ZERØ foi convidado para abrir a etapa brasileira da turnê mundial Break Every Rule, de Tina Turner, com apresentações no Maracanã e no Pacaembu.

Electro Acústico, lançado pela Sony Music em 2000, combinou músicas inéditas e releituras e se tornou o último álbum da banda a chegar oficialmente ao mercado. É esse intervalo de mais de duas décadas que o próximo trabalho encerrará.

Nos últimos anos, a retomada ganhou força. Em 2024, integrantes da formação original voltaram a se reunir em uma apresentação com ingressos esgotados no Madame Club, em São Paulo. Em 2025, a turnê O Tempo Voa e Agora Eu Sei celebrou os 40 anos de Passos no Escuro com lotações esgotadas no Circo Voador, no Rio de Janeiro, e no Mr. Rock, em Belo Horizonte.

A trajetória também foi registrada no livro ZERØ: Heróis + Passos no Escuro — A História de Clássicos do Pós-Punk e do New Romantic, de Marco André Briones. No mesmo período, uma nova formação paulistana estreou durante a inauguração do The Cavern Club, novamente diante de uma casa esgotada.

Com “Labirinto 21”, o ZERØ deixa de tratar sua história apenas como um catálogo a ser celebrado e volta a utilizá-la como força criativa. Ao reencontrar o produtor de seu primeiro compacto e preparar o primeiro álbum comercial da banda em 26 anos, Guilherme Isnard transforma mais de quatro décadas de trajetória no começo de outro percurso.