Foto: Simone Sodré/Divulgação
O blues chegou a Natal por muitos caminhos. Em Moisés de Lima, encontrou a gaita, o rock, a memória e uma história pessoal que vem sendo construída há mais de três décadas na música potiguar.
É desse cruzamento que nasce “Black In”, show que o músico apresenta nesta sexta-feira (25), às 20h, no Figa Bar e Cultura, na Vila de Ponta Negra. A apresentação reúne composições autorais, releituras instrumentais e canções que percorrem diferentes momentos de sua trajetória, tendo a gaita diatônica como uma das vozes fundamentais de sua atual fase artística.
Não se trata apenas de tocar blues. Em “Black In”, Moisés procura reconectar o blues àquilo que existe antes e depois dele: a África, a diáspora, a experiência negra nas Américas, a música brasileira e a própria formação cultural do Rio Grande do Norte.
A gaita funciona como fio condutor dessa pesquisa. Instrumento historicamente associado ao blues, ela aparece nas mãos do músico não como mero acompanhamento, mas como elemento de identidade e protagonismo. Entre bends, ataques, distorções e fraseados, Moisés constrói uma sonoridade que atravessa o blues e encontra o rock e outras referências da música afro-diaspórica.
O repertório parte de dois trabalhos que marcam essa nova etapa: o single “Afrika”, lançado em 2024, e o EP “Black In”, de 2025, ambos realizados com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB Natal/RN) e lançados pelo selo Mudernage.
A faixa que dá nome ao EP carrega ainda uma memória particular. “Black In” é uma homenagem a Edgar Borges, o Blackout, poeta negro e figura da contracultura potiguar, com quem Moisés conviveu em diferentes momentos de sua trajetória. A lembrança de Blackout ajuda a situar o projeto em um território onde música, poesia, identidade e resistência cultural se encontram.
Esse trabalho recente também trouxe reconhecimento. Em 2026, Moisés de Lima recebeu o Troféu Hangar de Melhor Compositor do Ano e “Black In” esteve entre os trabalhos indicados nas categorias Melhor Canção e Melhor EP.
Uma vida atravessada pela música
Antes de chegar ao projeto solo, Moisés já havia percorrido muitos dos caminhos da música potiguar. Sua história começa ainda no final dos anos 1980 e passa por bandas como Florbela Espanca, GRM Blues Band, Bourbon 33 e Os Grogs, grupo do qual participou por muitos anos e que se tornou uma das referências de sua trajetória no rock potiguar.
Vieram também outros projetos, entre eles Revolution 5 e The Anthologics, além de colaborações e encontros com músicos de diferentes gerações e linguagens.
A experiência como músico se mistura à de jornalista e pesquisador. Durante décadas acompanhando a cena cultural do Rio Grande do Norte, Moisés entrevistou artistas, escreveu sobre música e acompanhou de perto transformações da produção potiguar.
É dessa convivência com a música que nasce também sua pesquisa sobre a presença africana e afro-diaspórica nas diversas tradições musicais que atravessaram o Brasil e as Américas.
Em “Black In”, essa pesquisa deixa de ser apenas reflexão e passa a ser matéria sonora.
No palco do Figa, Moisés estará acompanhado por Thiago Andrade (guitarra), Paulo Fernandes (baixo) e Luiz Machado (percussão). Ele assume voz, guitarra e gaitas em um repertório que reúne músicas recentes e composições construídas ao longo de sua caminhada, incluindo parcerias com Graco Medeiros, Giancarlo Vieira e Ricardo Silva.
O resultado é um show que olha para trás sem permanecer preso ao passado.
“Black In” é blues, mas não somente blues. É rock, mas não apenas rock. É uma tentativa de reconhecer no som as marcas de uma história — e transformar essas marcas em linguagem própria.
Na sexta-feira, no Figa, essa história ganha novamente o palco.
SERVIÇO
Black In — Moisés de Lima
Sexta-feira, 25 de setembro, às 20h
Figa Bar e Cultura — Avenida Manoel Coringa de Lemos, 633, Vila de Ponta Negra, Natal/RN
Couvert: R$ 15
Informações: (84) 99959-2632
Instagram: @mdelima_1966
