Rap

Entre o lo-fi, o boom bap, a literatura, o cinema e o garimpo de vinis, MC mossoroense transforma um ano de reconstrução em um registro de sobrevivência, identidade e orgulho potiguar

Por: Redação

Imagem: A apresentação do Comedor de Camarão no lançamento do seu projeto, que aconteceu no Beco dos Artistas no último dia 22 (Divulgação)

O rap produzido em Mossoró ganha um novo registro com O fino do fino do rap potiguar, EP do MC mossoroense Comedor de Camarão. Lançado no dia 21, o trabalho marca o primeiro ano de trajetória do artista e nasce de um dos períodos mais intensos de sua vida.

Mais do que uma coleção de músicas, o EP é resultado de um processo de desintoxicação física, mental e espiritual enfrentado pelo artista ao longo do último ano, depois de um período de abuso de substâncias que, segundo seu próprio relato, chegou a comprometer sua capacidade de trabalhar, viver e manter sua estrutura familiar.

É desse lugar de reconstrução que surge o novo trabalho.

O fino do fino do rap potiguar funciona como um “atestado de sobrevivência”, construído a partir da crueza de quem revisita o passado sem filtros, encara os próprios abismos e tenta seguir em frente com a cabeça erguida.

“Em comemoração ao meu ano um, partilho com gratidão um feito”, afirma o artista, em entrevista ao Bolsa de Discos.

Mas o título, que à primeira vista pode parecer uma declaração de superioridade dentro da cena potiguar, carrega outras camadas. Comedor de Camarão reconhece a trajetória de outros artistas e a importância da produção que vem sendo construída no Rio Grande do Norte.

“Seria muita prepotência intitular meu som como o melhor do RN, sabendo do trabalho que vem sendo feito antes de mim e também de outros artistas que se dedicam em fazer essa cena no estado cada vez mais sólida”, diz.

A provocação está justamente na combinação entre marra, humor, identidade e memória cultural.

O “fino” que vem do vinil

Para chegar ao título e à identidade da obra, Comedor de Camarão se debruçou sobre anos de referências acumuladas a partir da pesquisa de discos de vinil, literatura e cinema.

“Me reservei para entregar a minha melhor versão, uni anos de bagagem cultural que cruzam a pesquisa minuciosa de discos de vinil, literatura e cinema para batizar a obra”, explica.

O nome O fino do fino do rap potiguar estabelece uma dupla referência.

De um lado, evoca a chamada era de ouro da música brasileira através de O Fino do Fino, álbum lançado em 1965 por Elis Regina e Zimbo Trio, um dos registros emblemáticos da música brasileira daquele período.

A capa do EP “O Fino do Fino do Rap Potiguar”, do Comedor de Camarão (Divulgação)

Do outro, o título incorpora a identidade do próprio artista e a relação com seu território. O “fino do fino” ganha a marra e o orgulho local de um legítimo “comedor de camarão”, expressão que conecta o MC à cultura e à identidade mossoroense.

A pesquisa histórica também chegou à identidade visual e conceitual do EP. O artista buscou inspiração em um compacto de vinil de 1976 com o hino do Potiguar de Mossoró, referência que acabou sendo incorporada ao universo da obra.

O verso “Sobre o branco das salinas / Vibra o sangue de um guerreiro” sintetiza parte dessa conexão entre território, memória e identidade.

As salinas, o branco característico da paisagem mossoroense e a imagem do guerreiro passam, assim, a dialogar com a própria narrativa de reconstrução presente no EP.

Recife foi ponto de virada

Outro momento decisivo para a construção do trabalho aconteceu durante uma viagem a Recife (PE), a convite do MC, produtor cultural e artista visual Markitoo, que também participa de uma das faixas.

As trocas de vivências e o contato com a cena cultural pernambucana ajudaram Comedor de Camarão a encontrar o caminho estético e lúdico que procurava.

A participação em um evento de poesia na capital pernambucana foi especialmente importante. A experiência trouxe à tona o tom que o artista procurava para transformar suas experiências em música.

Foi nesse processo que encontrou, segundo ele, “o tom exato do que e como eu queria dizer”.

A viagem acabou funcionando como uma espécie de chave estética para o EP, conectando as experiências pessoais do artista às referências culturais que já faziam parte de sua formação.

Entre o lo-fi e o boom bap

Musicalmente, O fino do fino do rap potiguar se movimenta pelas atmosferas do lo-fi e do boom bap, gêneros que ajudam a criar o ambiente para a narrativa construída nas cinco faixas.

O roteiro poético do EP, entretanto, não é apresentado como uma sequência de histórias isoladas. As músicas se amarram em uma mesma linha conceitual:

“A honestidade de perceber as dores, nos olhos amados a esperança do equilíbrio.”

A frase funciona como uma espécie de chave de leitura para o trabalho.

Existe dor, mas também existe a tentativa de reconhecer essa dor. Existe passado, mas também existe movimento. E existe, sobretudo, a possibilidade de encontrar equilíbrio a partir dos vínculos e das pessoas que permanecem por perto.

Cinco faixas de um processo de reconstrução

O EP reúne cinco músicas e foi produzido e interpretado por Comedor de Camarão, com participação especial de Markitoo em “Arrecifes”.

O repertório é formado por:

01 — Princípio
02 — Arrecifes — participação de Markitoo
03 — Hazel
04 — Sonho
05 — Templos & Desertos

Todas as faixas foram produzidas e interpretadas por Comedor de Camarão, com exceção da participação de Markitoo em “Arrecifes”.

O projeto é apresentado como um produto do Laboratório Pitú.

Mais do que uma estreia ou um exercício de afirmação dentro do rap potiguar, o EP registra uma passagem. É o resultado de alguém que precisou interromper o próprio caminho para reconstruí-lo e que decidiu transformar esse processo em linguagem artística.

Um “milagre particular”

Ao falar sobre o trabalho, Comedor de Camarão também o define como “um milagre particular”.

A expressão resume bem o espírito do projeto. O fino do fino do rap potiguar nasce de um período marcado por excessos, perdas e necessidade de mudança, mas não se limita a contar essa história.

O artista transformou a experiência em pesquisa, música, poesia, memória e identidade.

O vinil trouxe referências de outras épocas. A literatura e o cinema ampliaram o repertório simbólico. Recife ajudou a encontrar o tom. Mossoró forneceu o território, as salinas, o hino, a memória e o orgulho local. E o rap ofereceu a linguagem para juntar tudo isso.

No fim, o “fino do fino” não está necessariamente na ideia de ser melhor que alguém.

Está na tentativa de entregar a própria melhor versão.

E, para Comedor de Camarão, essa versão precisou primeiro sobreviver para depois virar música.