É tempo de falar de regionalidade. Sempre é. A música brasileira tem sido, ao longo da história, um dos principais instrumentos de preservação e divulgação das culturas que formam o país. Ritmos, sotaques, palavras e modos de contar histórias atravessam gerações e ganham novos sentidos sem perder suas raízes.
É nesse encontro entre música, linguagem e identidade regional que nasce “Ceguin de Amor”, composição dos mossoroenses Symmara Fèrnandes e César Guimarães, que ganha agora sua segunda regravação na Paraíba e chega à sua terceira versão gravada, todas em vozes femininas.
A história começou quando Symmara e César ainda eram namorados. Em uma conversa por uma rede social, César escreveu: “eu quero me ‘inlinhar’ contigo num nó cego. Pois sempre fui ‘ceguin’ de amor por você”. Anos depois, ao escrever um poema que já tinha duas estrofes, César mostrou o texto a Symmara. Ela percebeu que havia música naquelas palavras, escreveu mais duas estrofes, resgatou a antiga frase como mote e refrão e criou a melodia, os acordes e o ritmo de xote.

Assim nasceu uma canção que aproxima a linguagem sertaneja da musicalidade nordestina. Expressões como “inlinhar” e “ceguin” assumem seu lugar como marcas de uma identidade linguística própria, enquanto imagens como “eu sou um beija-flor beijando seu cangote” revelam o romantismo e a criatividade presentes no imaginário popular.
“Ceguin de Amor” integrou o primeiro EP de Symmara Fèrnandes, “Tempo”, lançado em 2021, com produção de Jubileu Filho. A partir daí, a composição ganhou novos caminhos. A paraibana Priscilla Lacerda incluiu a música em seu EP “Desconexão”, dando-lhe uma nova roupagem e ampliando suas possibilidades interpretativas.

Agora, a canção atravessa novamente a fronteira entre Rio Grande do Norte e Paraíba e passa a integrar o novo trabalho da cantora paraibana Joyce Nayare. A nova roupagem ainda é surpresa, mas representa mais uma possibilidade de leitura para a composição dos mossoroenses.
De uma frase escrita em uma conversa de casal a uma canção gravada por diferentes intérpretes, “Ceguin de Amor” constrói sua própria trajetória. Nascida de uma história de amor, com sotaque sertanejo e balanço de xote, a música reafirma a força da regionalidade e mostra que ela continua viva, sendo reinventada por novos compositores, músicos e intérpretes.
De Mossoró à Paraíba, “Ceguin de Amor” segue encontrando novos caminhos — sem deixar para trás o lugar e a linguagem de onde nasceu.
