Já faz algum tempo que a sintonia de Miley Cyrus não está na mesma estação que a de seu fandom. Com sua última turnê mundial sendo a Attention, em 2021-22, já são três álbuns em que os fãs esperam um empenho maior da artista em manter uma aproximação “parassocial”. Para muitos, na verdade, falta mesmo uma turnê e shows com apresentações de músicas que marcaram e se tornaram importantes na vida de muita gente.
Acontece que, entre o desgaste permanente nas cordas vocais e os inúmeros acontecimentos absurdos durante a Attention — que vão desde a morte de um amigo e ídolo antes do show no Brasil até seu avião ser atingido por um raio —, ela criou uma aversão a esse modus operandi que, pelo visto, se estendeu para toda a sua carreira artística.

E enquanto artistas menores, como Carly Rae Jepsen, que também lançou algo na semana passada, discutem aspectos da produção do disco e falam de sua vida de uma forma interessante e até identificável, uma das maiores artistas da minha geração nunca pareceu tão desinteressante e elitista.
No Endless Summer Vacation, Miley já cantava sobre se isolar em uma ilha metafórica, a qual considera um paraíso, onde não há a pressão de atender às expectativas de alguém e é kinda nice. Tudo bem: a própria Madonna deixou os Estados Unidos para viver uma vida com mais privacidade em Portugal. O que não esperávamos — e acredito que falo em nome de boa parte do fandom — é que Miley se isolasse a ponto de parecer que vive em uma outra realidade completamente diferente da nossa, onde só há ela, Maxx Morando, os animais que cuida e nada mais.
O resultado disso é que o trecho mais viralizado de uma das poucas entrevistas que ela deu na semana de lançamento de Bass Persuades, seu décimo álbum de estúdio, a pinta como uma elitista. E, com razão.
Discutindo a demanda para conseguir ingressos para os dois shows que fará no Hollywood Bowl, em Los Angeles, Miley comenta a possibilidade de uma residência nessa casa com seu humor meio debochado, dizendo que descobriu que seus cálculos estavam corretos: quem quiser vê-la ao vivo pode ir até ela; ela não precisa ir até os fãs. E isso é perfeito, pois ela resolve assim a vontade que as pessoas têm de vê-la ao vivo sem abrir mão de dormir na própria cama.
Segundo ela, os shows são apenas uma noite para o público, mas, para o artista, são meses de preparação. “Tudo na sua vida precisa se ajustar para que você entre em turnê”, diz ao repórter Zane Lowe.
Mas será que é assim?
Para assistir ao visual de Something Beautiful nos cinemas no ano passado, eu tive que ir a Natal de ônibus, trocar folgas de um emprego, solicitar day off em outro, encontrar alguém para cuidar dos meus gatos de estimação e encarar sete horas de estrada — só para a ida. Quando um show internacional vem para o Brasil, essas horas de ônibus somam-se às de avião até São Paulo, por exemplo, onde assisti ao show da Bangerz Tour em 2014. Isso sem contar o traslado entre aeroporto, hotel ou casa de amigo antes de finalmente descansar para vivenciar o show.
Essa viagem a Natal, em específico, foi também minha primeira viagem de longa distância desde a COVID. Acreditem se quiser: a última vez que viajei havia sido para o show de Sandy & Junior em Salvador, na época da turnê Nossa História, em 2019. Ter vivido a pandemia e contraído o vírus me deixou com uma fobia imensa de espaços com muitas pessoas, a ponto de sequer me sentir confortável quando vou ao cinema e o shopping está muito lotado. A dinâmica para compra de ingressos e o preço das passagens aéreas só aumentam esse clima de ansiedade, que aos poucos tem virado comodismo.
A verdade é que, antes mesmo disso acontecer, o fato de ter que viajar longas distâncias de formas desconfortáveis devido à minha condição financeira já era algo que não me agradava. As circunstâncias só pioraram o sentimento e, por isso, simpatizo com o trauma deixado pelas situações da Attention na vida da Miley.
Mas, ainda assim, munido de uma cartela de ansiolíticos, encarei o desafio e tive o privilégio de vivenciar o álbum visual de uma artista importantíssima para a minha vida nos cinemas. Foi uma experiência muito única, que guardo comigo até hoje.
Foi por isso que fui pego de surpresa não tanto pela possibilidade de uma residência, mas pela escolha de palavras para conversar sobre essa possibilidade e pela naturalidade com que elas foram proferidas. Como assim as pessoas que querem te ver ao vivo irão até você, em um país onde o presidente, dia sim e outro também, está nas redes sociais gerando vídeos de inteligência artificial sobre o quanto odeia imigrantes, especialmente latinos como eu?
Como assim você veio até mim, se eu tive que encarar toda essa jornada entre múltiplos transportes para vivenciar seu show, seu álbum visual? E por que precisei rearranjar tantas coisas antes de comprar ingressos e passagens, se isso é um negócio de “apenas uma noite” para quem é fã?
Aquela fala foi terrível e, infelizmente, veio dessa realidade distante na qual ela se colocou. E é assustador observar que a artista que fez Mother’s Daughter com a FEMEN, o álbum Younger Now para dialogar com a direita americana e fazia até tênis Converse para levantar grana para ajudar abrigos de LGBTs sem-teto hoje não tem sequer um filtro na hora de divulgar um álbum e uma possível residência.
O clima fica ainda pior quando ouvimos ela dizer que fez a apresentação de Flowers no Grammy, um de seus momentos mais icônicos nesta década, após ser “sequestrada” por sua madrinha Dolly, que a convenceu, com muita luta, a participar da premiação.
Quando a Attention acabou e, na ocasião, tive uma conversa com Olivia Rudensky, que faz parte da equipe da Miley, ficou implícito um clima de que talvez aquela fosse a última performance em muito tempo para a artista. Mas não esperava que a situação evoluísse para a impressão de que todo o resto fosse um fardo. É loucura pensar que nem na gravação do clipe ela estava “em paz” por causa da temperatura no viveiro de sua tartaruga, e como isso ficou parecendo um empecilho, algo que só concluiu porque alguém a obrigou.
Assim como muitos, eu sinto falta da Miley cantando, mas também tenho a impressão de que só sinto isso porque sou classe média e brasileiro. Pelo que acompanho, fica parecendo que quem tem acesso ao Chateau Marmont tem o privilégio de se sentir diferente. Discos autografados? Só para a loja dos Estados Unidos — vi até fã canadense reclamando da dificuldade para adquirir merch em geral. Tudo se esgota tão rápido que, entre scalpers e smilers, só três fãs conseguem pôr as mãos numa cópia.
E as próprias entrevistas, quando acontecem, giram em torno da mesma coisa ou acabam se tornando coisas absurdas, como foi o caso desta última. Acho que existe uma diferença entre a maldade dos de fora em distorcer falas e atitudes, algo proeminente na carreira dela, e alienar os próprios fãs a ponto de todo mundo ter medo de ler ou assistir algo e se decepcionar.
A coisa azedou tanto que vê-la dizendo que o problema de turnê é marcação de horário para bronzeamento não consegue parecer cômico ou debochado, mas sim desconexo da realidade de uma pessoa comum de um jeito muito “pobre menina rica”.
Mesmo com essas questões, estávamos todos felizes, de certa forma, com o lançamento de Bass Persuades. É uma novidade de uma artista que marcou a nossa vida, sabe?
O papo com Zane Lowe, porém, acabou com tudo. Ficou um clima tão chato e decepcionante que sequer consegui ouvir o disco desde então. A notificação de que minha pré-venda havia sido enviada, antes uma fonte de alegria e expectativa, virou indiferença. Se, em setembro de 2012, ela havia dado início às primeiras Backyard Sessions no dia do meu aniversário, 14 anos depois ela quis soar engraçada com uma fala que parece desdenhar de “mim” e das minhas limitações.
Não vou deixar de acompanhar a Miley, porque já superei o fato de ela não atender às minhas expectativas desde 2010, quando esperava que viesse um Plastic Hearts e recebi um Can’t Be Tamed. E, mesmo com a intensidade dos sentimentos na adolescência, escolhi continuar aqui.
Estamos discutindo uma artista que tem um impacto imensurável na minha vida. Que me ajudou a enfrentar um burnout. Uma depressão. Várias vezes. Mas é frustrante vê-la tão distante de mim, a ponto de não sentir o mesmo interesse pelo seu trabalho artístico.
Quem acha que o problema se resume a “não vai ter turnê” não consegue entender que o problema é muito mais profundo, pois envolve a falta de identificação mesmo. Hoje, parece que o que está em jogo é a nossa relação fã-artista, construída em vinte anos de muita história.
Torço para que o futuro seja diferente. Espero recuperar a vontade de ouvir novamente Bass Persuades o mais rápido possível, mas, por enquanto, essa criança aqui não está muito a fim de dançar.
