Crítica/Disco

Bass Persuades, canção-título, abre o projeto evocando uma entrevista em que Miley comenta o quanto gosta das músicas do Blondie. A letra dialoga com Autoamerican, álbum lançado pela banda em 1980, e, de certa forma, soa como sua própria versão de Rapture: muito mais do que um convite para interagir uns com os outros em vez de com nossos smartphones, é um chamado para aceitar a si mesmo e abraçar a liberdade que merecemos

Por: Davi Nícolas, especial para o BDD

O décimo álbum de Miley, Bass Persuades, é também seu primeiro número 1 na Billboard 200 em 13 anos. Conhecida por abraçar gêneros e sonoridades diferentes a cada projeto, a David Bowie do Mickey mergulha, desta vez, em um pop rock alternativo que conversa bastante com o lado dark de Can’t Be Tamed e com Plastic Hearts, além de funcionar como uma evolução interessante de Something Beautiful e Endless Summer Vacation. Fãs mais ligados ao pop do que ao rock talvez sintam que a Miley deste disco está alternativa demais e tragam Dead Petz para a conversa — o que é compreensível, mas tendo a discordar dessa associação.

Bass Persuades, canção-título, abre o projeto evocando uma entrevista em que Miley comenta o quanto gosta das músicas do Blondie. A letra dialoga com Autoamerican, álbum lançado pela banda em 1980, e, de certa forma, soa como sua própria versão de Rapture: muito mais do que um convite para interagir uns com os outros em vez de com nossos smartphones, é um chamado para aceitar a si mesmo e abraçar a liberdade que merecemos.

Different Religion, parceria com a banda européia Model/Actriz, funciona tanto como uma metáfora para um relacionamento amoroso em que o outro é colocado em um lugar de adoração quanto como uma reflexão sobre questões religiosas que Miley vem explorando. Seus últimos trabalhos já traziam imagens de uma “bolha” cor-de-rosa — a ilha de Endless Summer Vacation e o Éden de Something Beautiful — e do medo de estar fora dela. É possível enxergar nessas imagens reflexos da maneira como ela lida com sua espiritualidade e com o trauma causado pelo raio que atingiu o avião em que estava durante a turnê Attention.

Let’s Get Married, a terceira faixa, encontra Miley em uma de suas melhores áreas de composição: as baladas românticas. A canção exala vulnerabilidade com uma certa inocência, especialmente quando ela pergunta repetidas vezes “what did I do to deserve you?”. A frase também remete às inseguranças de quem, por anos, viveu uma relação em que o parceiro era incapaz de aceitar sua personalidade, fazendo-a sentir que precisava se “podar” ou “diminuir” para caber naquela dinâmica. Se em Wildcard, de 2023, ela dizia que loving you is never enough ou que forever may never come, em Orbit baixa ainda mais as guardas ao confessar que quer orbitar ao redor do parceiro eternamente.

Já em Aftermath, parece revisitar um relacionamento passado. É a faixa mais pop do disco depois de Bass Persuades. Ao dizer que está sick of poets being profound, a letra me leva a um de seus relacionamentos antigos, em que o parceiro escrevia poesias com um pseudônimo. Ao mesmo tempo, ela confessa sentir saudade do futuro — dos planos que havia feito para o casal — enquanto se pergunta se ainda permanece na memória dele e reafirma para si mesma: you were never mine.

REDLIGHTS, minha favorita e escolha pessoal para representar a obra, é onde Miley retoma a conversa sobre espiritualidade, dessa vez focando na mortalidade. “When I’m summoned to the sky, I won’t fear anything, even enjoy that last goodbye… ‘Cause I have something to believe in, and baby, you’re the reason” apresenta alguém finalmente pronta para enfrentar o medo da morte, amparada pelo amor do outro. Reconhecendo as diferenças que talvez cerquem esse relacionamento, Neon Lights aposta que, ainda assim, ela pode ser uma late night company para seu parceiro. É aqui que encontramos uma Miley muito apaixonada, talvez como não a víamos há bastante tempo.

Innocent Ways, por sua vez, explora outra faceta dos laços familiares de Miley, possivelmente refletindo sobre o período de distanciamento de sua irmã, Noah, em meio ao divórcio dos pais. “Grace comes with age, but don’t tell her” funciona como uma metáfora para a ideia de que o tempo resolve certas feridas e que nem sempre precisamos interferir nesse processo. A faixa ainda menciona Blondie, fortalecendo, para mim, as similaridades entre Bass Persuades e Rapture.

Encerrando o disco, Snow nos leva exatamente ao momento em que Miley foi pedida em casamento, durante sua primeira viagem ao Japão. “Now your knee’s in the dirt as I hold out my left, You should swallow the nerves ‘cause there’s yes on my breath.” A faixa cria uma atmosfera belíssima quando ela canta que ambos fall like snow, como se os dois se misturassem naquele instante ao próprio clima, quase como uma cena psicodélica de Yellow Submarine.

Bass Persuades é o trabalho mais coeso e maduro de Miley até aqui, talvez porque venha de um lugar mais vulnerável e menos ambicioso que seu antecessor. Nas baladas, Miley se mostra uma romântica à moda Cazuza, completamente exagerada e rendida aos braços do sentimento. As figuras de linguagem escolhidas em músicas como Orbit evidenciam a intensidade e, ao mesmo tempo, a inocência que conseguiu se manter intacta após tantas decepções nesse departamento. É importante ressaltar, porém, que a busca por manutenção e estabilidade que atravessa o álbum permite que ele tenha muito a dizer para além do romance: há espaço para medos, espiritualidade e família.

É justamente aí que o disco encontra sua maior força. Miley abraça uma sonoridade construída e lapidada ao longo de sua trajetória enquanto busca na música uma forma de reencontrar o prazer de ser artista. Bass Persuades talvez não seja seu trabalho mais inovador, mas é certeiro naquilo que se propõe: apresentar ao mundo uma estrela mirim que se recusa a viver a narrativa de caos e perdição escrita para ela.

Não à toa, parte da imprensa que historicamente ajudou a construir sua vida pública em torno do caos parece considerar este trabalho “desinteressante”. Talvez porque, para uma artista cuja história pública foi tantas vezes construída em torno da ruptura, da controvérsia e da reinvenção, exista algo quase subversivo em simplesmente estar bem.