Entrevista

Na tarde anterior ao show espetacular no Jazz e Blues, Tauí Castro e Caetano Brasil nos concederam entrevista exclusiva ao BDD. Tauí Castro é pandeirista, DJ e produtor cultural cearense, idealizador e membro da Orquestra Cabulosa. Caetano Brasil é um exímio clarinetista, um dos grandes nomes da música instrumental de sua geração

Por: Renan Simões, de Guaramiranga, especial para o BDD

Imagem: A Orquestra Cabulosa em ação no Festival Jazz e Blues (Foto: Eunilo Rocha)

A apresentação da Orquestra Cabulosa, de Fortaleza, com o clarinetista mineiro Caetano Brasil foi a mais enérgica, sinérgica, impactante e espiritual do 27º Festival Jazz & Blues de Guaramiranga/CE. Cada um dos músicos era uma usina de força atuando em prol da cura através da música: Caetano Brasil (clarinete), Tito Freitas (piano), Thesco Carvalho (trombone), Calíope (flauta e flautim), Ray Douglas (trompete), Juvêncio Linhares (contrabaixo), Lu D’Sosa (guitarra), Thiaguinho Silva (percussão) e Tauí Castro (pandeiro). Todos mestres de seus instrumentos, mas ao mesmo tempo sábios e humildes para que o conjunto funcionasse como um todo.

Na tarde anterior a esse show espetacular, Tauí Castro e Caetano Brasil nos concederam entrevista exclusiva ao BDD. Tauí Castro é pandeirista, DJ e produtor cultural cearense, idealizador e membro da Orquestra Cabulosa. Caetano Brasil é um exímio clarinetista, um dos grandes nomes da música instrumental de sua geração, com uma carreira que transita entre a música, a moda e o ativismo.

 

Renan Simões (Bolsa de Discos) – A trajetória de vocês é uma ótima representação do músico contemporâneo, que transita por diversas vertentes de forma profunda. Como se deu a trajetória musical de vocês?

Caetano Brasil – Eu venho lá de Minas Gerais, né? Do meu país Juiz de Fora. Lá eu conheci a música através da flauta doce, e partir dela conheci o choro, que foi a minha grande escola de formação musical, dentre os meus vários convívios artísticos. Os meus pais eram do teatro, a gente sempre teve muita literatura, artes visuais em casa. Eu percebi que não ia escapar de trabalhar com a música.

Comecei profissionalmente aos 15 anos, tocando no Clube do Choro de Juiz de Fora, e do choro eu fui para todas as outras coisas do mundo que eu amo tocar. O jazz, outros estilos da música latina além da música brasileira. Também a música dos povos, que foi tema de pesquisa do meu álbum Cartografias, lançado em 2019, e que foi indicado para o Grammy Latino. Pensando que a música seria o fio condutor de uma história na Arte, é que depois se juntou, inevitavelmente, à moda, ao ativismo, e é levantando essa bandeira que eu tenho rodado o Brasil, fazendo o meu sonho. Eu estou aqui hoje com a Orquestra Cabulosa e o Tauí Castro.

Tauí Castro – Eu venho de uma família de músicos, mas tentei fugir da música o máximo que eu pude. Fiz faculdade de Filosofia, fiz faculdade de Teatro, mas teve um momento que foi impossível continuar empreendendo essa fuga, e comecei tocando reggae com a galera da faculdade, e depois eu conheci o choro. Sempre escutei música instrumental em casa – jazz, música de concerto, Villa-Lobos, essas coisas -, mas quando eu me deparei com o choro, entrei em um grupo de estudo de choro, o que abriu essas portas que nunca mais se fecharam. A partir disso, montei uma produtora cultural, fui produtor da Orquestra Sinfônica da UECE, a OSUECE, e fui trabalhar com curadoria e produção cultural. Criei alguns festivais, hoje tenho três festivais, nessa trajetória de 11 anos da Coisa e Tal Produções, que é o nome da minha produtora. Faço curadoria para três equipamentos culturais públicos, além de mais de 250 apresentações mensais no campo do privado.

Acaba que eu transito muito entre a parte de produção e a parte musical. Como sempre, fui procurando esse meu lugar, e acho que o lugar que eu encontrei foi muito dessa música… Como é que eu posso dizer? De uma forma de fazer música muito mais pautada na improvisação do que em qualquer outra coisa. Então, assim, as rodas, os saraus… A roda de choro é o lugar que eu encontro esse improviso, e a gente traz isso muito para a Orquestra Cabulosa, que antes se chamava Choro Cabuloso.

Quando se chamava Choro Cabuloso, a gente nem ensaiava. A gente combinava algumas coisas e ia para o palco sem repertório, sem muito ensaio, e deixava a música ser muito mais viva do que ela já é, no sentido da improvisação, de até as escolhas serem movimentadas em cena. A Orquestra Cabuloso exige agora um trabalho um pouco mais dedicado, por ter crescido. Agora somos oito músicos, e algumas formações. A Orquestra Cabulosa tem essa formação que vai acontecer hoje aqui no Jazz & Blues, convidando o Caetano, mas ela também tem uma formação de baile, que aí mudam alguns elementos e acrescentam alguns outros. Inclusive as pick-ups de DJ, que eu deixo o pandeiro de lado na Orquestra Cabulosa Baile e vou para a onda do DJ. É muita coisa, a história é longa.

 

Renan Simões, do BDD, durante entrevista com a Orquestra Cabulosa, em Guaramiranga (Foto: Myrna Barreto)

Renan Simões (Bolsa de Discos) – Caetano, a clarineta é um instrumento protagonista em universos musicais bem distintos – jazz, música de concerto europeia, choro. Como você acredita que essa adaptabilidade do próprio instrumento aos diversos contextos está presente na sua obra?

Caetano Brasil – Ah, o clarinete, acho que ele é a minha voz. A gente fala muito dessa história do instrumento escolher a gente, e acho que em alguma instância isso é um pouco verdade. Claro, eu também toco outras coisas, toco saxofone, mas o clarinete é uma coisa muito natural, dialoga com os meus universos.

Apesar de ter vindo do choro, e o choro sempre fazer parte de mim de alguma forma, vou a uma jam session e toco [John] Coltrane, toco Wayne Shorter. Aí alguém fala “você toca choro, né?”. “É, toco choro. Não tem como fugir, né? Mas eu gosto de tocar muitas outras coisas. Eu gosto de flertar com muitos universos”. E isso não só dentro da música.

Então, acho que o clarinete vai virando uma extensão disso. Hoje, esse instrumento tem voltado com tudo pra cena. Ele ficou longe durante um tempo, quando a música começou a ficar mais elétrica, porque a gente tem desafios pra amplificar esse instrumento. Ele tem muitos sons no grave, muitos sons no agudo, que saem em regiões diferentes da peça, do instrumento. Hoje, com o avanço da tecnologia, com o advento da internet no mundo atual em que vivemos, a gente tem melhores soluções.

Assim, posso tocar de duo com violão, posso tocar com conjunto regional, posso tocar com orquestra, e é um instrumento que sobrevoa tudo, que tem muitas cores. É assim que eu me enxergo um pouco, dialogando com vários universos, criando pontes, até então, inéditas, entre o ativismo negro e a comunidade LGBTQIAPN+. E a moda com a música instrumental, que ainda é um universo muito masculino, muito heteronormativo. Então, acho que o clarinete é tão preto e tão queer quanto eu, de alguma maneira. Tanto é que é clarinete ou clarineta. Então, acho que, de alguma forma prática ou simbólica, esse instrumento me representa. Eu estou me rendendo a isso, deixando acontecer.

 

Renan Simões (Bolsa de Discos) – Tauí, a Orquestra Cabulosa é um grupo composto por músicos com carreira consolidada, que não é tradicional em sua formação e concepção, e que transita entre tradição e vanguarda, entre música de concerto e músicas populares. O que você acredita que representa, no cenário musical de Fortaleza, a existência de um grupo como esse?

Tauí Castro – Pra começar, eu nunca me rendi muito à caretice da música instrumental. Então, eu trago para o nome do grupo uma coisa que é muito tradicional, que é esse nome, orquestra, mas que é uma orquestra cabulosa no sentido de que a gente não busca ser tradicional nesse quesito. Então, a gente foge…

A gente começou, como eu te falei, com um grupo chamado Choro Cabuloso, que rendeu muitas críticas das pessoas mais tradicionais do choro, porque era um grupo que tinha guitarra, um grupo que traz os tambores para dentro de uma formação, que a gente dizia ser o Choro Cabuloso. E aí tinha tambor, atabaque, coisas que reverenciam muito essa terra, a África, de onde vem toda a música do mundo. Pelo menos do nosso lado, é impossível pensar uma música que não tenha essa raiz, essa matriz.

Isso é muito importante, porque a gente traz pessoas que já têm uma história muito longa, como o Tito Freitas, que tocou com Tim Maia, Baden Powell, Leny Andrade, que foi, há muitos anos, diretor do Emílio Santiago. O grupo traz pessoas de uma bagagem muito grande, mas também de pessoas que estão bem recentes na cena. Na outra formação, a gente tem o Lucas Marques, que é um guitarrista que ainda está na casa dos 20 anos, mas que é extremamente virtuoso, uma pessoa incrível, mas que traz uma linguagem mais moderna, que tem outras refs.

Então, a gente junta a tradição com a vanguarda e vai dialogando com o fio condutor a partir dos tambores de África. Isso é muito enriquecedor, porque o Thiaguinho, que é o nosso percussionista, ele é Ogan de um terreiro de origem Keto, assim como eu também sou Ogan de outro terreiro dessa origem. Então, a gente traz essa coisa mais África, que por muito tempo ficou sintetizada só no pandeiro. A gente dialoga muito com isso nas composições, mesmo que a gente faça composições de jazz tradicionais, a gente traz essa coisa do batuque negro muito mais presente.

 

Renan Simões (Bolsa de Discos) – Para finalizar, quais são seus projetos artísticos futuros?

Caetano Brasil – Bom, a gente está sempre que pode fazendo música juntos, né? Eu conheci o Tauí há quase 10 anos atrás, na primeira vez que eu vim para o Ceará para tocar o meu show, ainda na transição entre os dois primeiros álbuns de carreira. A gente cultivou uma amizade à distância, e nas primeiras oportunidades que ele teve de me chamar, ele me chamou e a gente fez várias coisas aqui. Eu participei de um dos festivais que ele idealizou e produz, que é o circuito Chora Iracema, que foi muito incrível. Então, acho que tem essa coisa do choro que sempre cria elos, né? O choro tem essa característica muito democrática de promover encontros.

Eu tenho os meus trabalhos com as bandas que me acompanham fixamente. Esse ano eu estreio um show com o Sexteto, que se chama Flores pro Moa – o choro vivo de Moacir Santos, que completa 100 anos em 2026. Também lanço, através de um encontro que aconteceu com a Big Band do Conservatório de Tatuí, um álbum com a Big com um repertório todo de música brasileira, com músicas autorais. Então, 2026 é um ano que está prometendo, e já está mostrando muitas coisas maravilhosas. Me trouxe aqui para o Jazz & Blues, para a gente fazer esse som, que vai passear pelo universo dos standards americanos. A gente vai tocar uma música de uma pianista japonesa que se chama Toshiko Akiyoshi, maravilhosa, e mais algumas autorais minhas. Enfim, acho que essa ponte é muito enriquecedora. Acho que a gente é feito disso, dos encontros.

Tauí Castro – Como o Caetano falou, a gente já vem se encontrando há muito tempo, sempre que pode, já se encontra. Vale ressaltar, como eu comentei, que trabalho com produção, com curadoria. Vamos estrear um festival agora, na quinta-feira, de 19 a 21 de fevereiro, quinta, sexta e sábado depois do carnaval, chamado Ponte Instrumental Nordeste. É a primeira edição, que tem como intuito principal isso que a gente vem conversando, de ser uma ponte. Então a gente traz artistas de fora, como Caetano Brasil, para tocar com a Orquestra Cabulosa, traz o Lucas Martins, que é um percussionista do Espírito Santo, mas que agora mora em São Paulo, que vai tocar com o Siara Quarteto, que é um quarteto de cordas de Fortaleza. Tem o Pablo Dias, um grande cavaquinista de Minas Gerais, que vai tocar com o Luiz José, um grande cavaquinista que a gente tem. A gente segue criando essas pontes para além da minha própria banda. A ideia agora é que a gente possa criar novas conexões a partir desses encontros, e que isso gere outros frutos, outros resultados, outros trabalhos. Fica o convite aí para o PIN, Ponte Instrumental Nordeste, que vai acontecer no Centro Cultural Banco do Nordeste, agora chamado de Banco do Nordeste Cultural Fortaleza, a partir do dia 19 de fevereiro.