Analu iniciou sua trajetória musical desde muito cedo, inclusive na composição musical. A artista, já com um álbum gravado e com muito material audiovisual nas redes, surpreendeu o público do 27 Festival Jazz & Blues de Guaramiranga, apresentando um show solo, apenas voz e violão – em algumas músicas, voz e percussão. O acompanhamento ao violão da artista é bem preciso, mas o que brilha são seus floreios e linhas vocais, muito bem construídos e consistentes.
Analu iniciou o programa exibindo sua virtuosidade vocal na clássica Águas de março, seguida por Dunas, composição de Rosa Passos – que se apresentou logo após a artista, no mesmo dia e palco. A seguir, uma dobradinha com Seduzir e Sina, ambas de Djavan, com uma levada rítmica e arranjo muito interessantes. As instabilidades e excentricidades rítmicas estiveram aqui em contexto acessível ao ouvinte médio.
Se eu soubesse talvez tenha sido a música harmonicamente mais complexa do repertório, embora com uma melodia bastante pueril. Uma ousada chamada à participação do público deu super certo no mix de Este seu olhar e Promessas (ambas de Tom Jobim), no qual as duas eram cantadas simultaneamente em um dado momento, uma pela artista e a outra pelo público
A seção central consistiu em quatro canções autorais de Analu, algumas das quais ainda inéditas: Acalento, Mais que tudo, Os olhos falam por si só (para mim, o grande destaque autoral da noite) e Cachoeira.
A partir daí o show foi ficando cada vez mais impactante. Açaí, outra composição de Djavan, teve ótima participação do público, mas a que mais me emocionou foi o diálogo entre Everybody wants to rule the world, do Tears for Fears, e Esotérico, uma das obras primas de Gilberto Gil, que comandou o repertório do final do show. Como fã confesso que sou do Tears for Fears, afirmo que ela conseguiu fazer uma interpretação à altura do original. Para a surpresa do público, Analu se muniu de um par de assalatos (instrumento de percussão africano) e nos brindou com uma versão inspiradora de Expresso 2222 (Gil), e outra extremamente virtuosa de Onde o xaxado tá (Gil e Rodolfo Stroeter).
O show da artista foi finalizado com três destaques do cancioneiro nacional: À primeira vista (Chico César), Vatapá (Dorival Caymmi) e Drão (Gilberto Gil). Como bis, a artista nos presenteou com uma versão para voz e percussão corporal de Bananeira (João Donato e Gilberto Gil), deixando para o público uma gostosa sensação de que acabou de presenciar uma grande artista de palco.
