Na manhã do último dia do 27º Festival Jazz e Blues de Guaramiranga, prestigiamos a espetacular apresentação musical Craterdam – 70 anos de Cleivan Paiva, com Cleivan Paiva (violão) e Cláudio Mappa (contrabaixo acústico), dois dos mais destacados músicos atuantes no Cariri. O duo foi formado especialmente para este festival, e o repertório consistiu em composições de Cleivan, cuja produção abarca dois LPs – Guerra e paz (1984) e Cleivan Paiva (1990) -, o CD Sonhos do Brasil (2003) e dois especiais audiovisuais.
Cleivan Paiva, piauiense da cidade de Simões e residente no Crato/CE, participou de vários festivais, tendo dividido palco com inúmeros artistas, como Hermeto Pascoal, Mauro Senise e Gilson Peranzzetta. O artista compôs a trilha sonora original dos filmes O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto e A saga do Guerreiro Alumioso, ambos de Rosemberg Cariry, e de diversos seriados de televisão. Cleivan Paiva foi um dos quatro músicos homenageados no 27º Festival Jazz e Blues de Guaramiranga, junto a Beto Guedes, Rosa Passos e Marcelo Bedê.
Cláudio Mappa é contrabaixista, com atuação em contextos musicais diversos, principalmente nos gêneros erudito, jazz e instrumental brasileiro. Mineiro de Ouro Preto, reside no Cariri cearense desde 2010, onde é professor do Curso de Música da Universidade Federal do Cariri (UFCA); se dedica ao ensino de cordas graves e desenvolve projetos nas áreas da prática musical, formação de grupos e musicologia.
Renan Simões (Bolsa de Discos) – Cleivan, acabamos de assistir a seu show, que foi muito inspirador, de um repertório autoral muito consistente e bem elaborado. Sobre sua trajetória, quais os artistas que mais te inspiraram na música?
Cleivan Paiva – Eu sou nascido em uma cidade pequena, chamada Simões, no Piauí, e a gente tinha uma vizinha que emprestava um aparelho de som. Eu era garoto, muito jovem, acho que com oito anos. Passei a minha infância toda foi ouvindo João Gilberto, que na minha geração era a música mais popular, né? Tinha a Jovem Guarda, no máximo a seresta, que meus colegas tocavam na rua, que eu ouvia nos bares. Mas lá em casa tinha um disco de João Gilberto que eu não sabia o que era. O meu gosto ia para a música jovem, mas embora João Gilberto fosse jovem, é bossa nova, que é uma música bem mais difícil de tocar, mais complicada. Enfim, a minha infância toda foi ouvindo João Gilberto, e acredito que a minha referência musical inicial veio daí, totalmente. Se não me engano, era o primeiro LP do João Gilberto, que eu escutava direto, embora não entendesse nada: acordes diferentes, dissonantes. Com os anos, eu comecei a compreender o que ele fazia, a arte da bossa nova, das harmonias dissonantes. Isso aí acho que foi a minha inspiração total, minha escola na música foi justamente ouvir João Gilberto, quando garoto, quase o dia todo.

Renan Simões (Bolsa de Discos) – Cláudio, quais os artistas que mais te inspiraram para a música?
Cláudio Mappa – Eu gosto tanto de música erudita quanto de música popular, especialmente música popular brasileira. Gosto muito da música francesa, Debussy, Ravel, aquele período pós-moderno; Bach também. Na música popular brasileira, gosto bastante dos mineiros, porque foi uma música que estava na minha raiz familiar: Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes. Gosto muito do Caetano Veloso, Gilberto Gil. Sou fã do Tom Jobim, acho que aquele momento ali da bossa nova foi muito especial. Para mim, as composições do Tom Jobim são realmente pérolas com as quais a gente caminha, sempre ouvindo e tentando absorver. Também gosto muito de jazz, dos grandes músicos de jazz, os pianistas, os guitarristas, os baixistas, ouço praticamente todos dentre os mais conhecidos,
Renan Simões (Bolsa de Discos) – Cleivan, você lançou dois LPs, um CD e agora um álbum ao vivo, lançado digitalmente. Sobre suas composições, notei grande variedade, originalidade, virtuosismo técnico e musical, e um diálogo bem consistente entre a música brasileira e o jazz internacional, de uma forma bem variada, bem criativa. De toda essa sua trajetória, quais momentos, álbuns, músicas ou parcerias que você poderia destacar?
Cleivan Paiva – Como eu te falei, sou de uma cidade pequena, mas vim estudar no Crato, e tive uma sorte danada na minha vida. Quando eu cheguei no Crato, nos anos 70, estavam iniciando os festivais de música da cidade, que se tornaram tradicionais, no Crato, no Cariri, no Ceará, no Brasil e no mundo. Com 15 anos de idade já comecei a compor música para o festival, e logo depois eu fui para São Paulo. Para mim, o mais importante foi que eu entrei com duas músicas no Festival da Cultura, da TV Cultura. O vencedor desse festival foi o Arrigo Barnabé, desse pessoal jovem, inquieto. Não teve jeito de mudar, sempre fui inquieto com a música e tentando criar o que fosse possível, de preferência que tenha beleza, que agrade às pessoas. Então eu acho que o Festival da Cultura, para mim, foi importantíssimo.
Depois eu fiz o festival da Rede Tupi Televisão, que na época era quase a Globo, era uma rede bem presente no dia-a-dia. Eu tinha também amizade com o Hermeto Pascoal, eu acho que a gente tem muito a ver. O Hermeto é um cara genial, eu já toquei em show com ele, fazendo participação, e também encontrava muito com ele em São Paulo quando eu morava lá. Foi também muito importante produzir os meus discos, e atualmente, eu toco um show, realizado antes daqui de Guaramiranga, que é o Sonhos do Brasil II, que está disponível no YouTube.
Renan Simões (Bolsa de Discos) – Com uma produção espetacular de canções, inclusive apresentadas em Sonhos do Brasil II, por que nesse show de hoje você não cantou nenhuma canção?
Cleivan Paiva – Ah, pois é. Podia ser. [risos] Quando me chamaram para o festival, eu pensei só em músicas instrumentais, mas depois que eu vi que tem cantoras no festival. Tem de sobra, eu não tinha me tocado.
Renan Simões (Bolsa de Discos) – Sobre seus álbuns, gostaria de destacar mais alguma coisa?
Cleivan Paiva – Os álbuns foram importantes. O primeiro foi o Guerra & paz [1984], que inclusive tem um amigo meu que está querendo fazer uma tiragem. Porque não tem mais, né? Esgotou total, todos os discos, aí ele quer mandar prensar mais, se eu não me engano, 500 discos; acho que para esse ano.
Renan Simões (Bolsa de Discos) – Cláudio, como se dá o diálogo entre a vida universitária, o ensino da música e a produção artística, especialmente essa parceria com o Cleivan?
Cláudio Mappa – Quando lecionamos nas Universidades ou nos Institutos Federais, temos que estabelecer um diálogo com a comunidade local, com os artistas, produção musical, signos musicais e tradições dessas regiões onde as nossas universidades se encontram. Eu procuro olhar um pouco através disso. Nas minhas atividades de ensino na Universidade Federal do Cariri (UFCA), eu busco, sempre que possível, trazer as músicas da região e elementos da musicalidade local. Em nossa região, há uma grande riqueza de música popular e música tradicional, o que buscamos sempre trazer para a nossa prática diária de ensino
O trabalho com o Cleivan vem nesse contexto. Desde quando cheguei no Cariri, em 2010, procurei atuar com os músicos da região, para fazer essa ponte entre o ensino e essa prática artística. Tocar com os músicos da região complementa e alimenta o meu trabalho de ensino. O Cleivan é muito especial, ele é um ótimo instrumentista e sua produção é fantástica; ela traz a musicalidade da região, com linguagem harmônica e rítmica bastante elaboradas.
Renan Simões (Bolsa de Discos) – Cleivan, após tanta coisa, quais são os seus projetos musicais atuais e futuros?
Cleivan Paiva – Eu tenho um plano aí. Um filho meu mora nos Estados Unidos, é professor de Música na Califórnia, e meu sonho é ir fazer show lá. Ainda não tem nada certo, mas eu queria levar esse som que vocês ouviram aí lá para os Estados Unidos. Teve uma música hoje do show, Califórnia, que é uma homenagem a ele. A ideia é ir pra lá no segundo semestre desse ano.
Myrna Barreto (Bolsa de Discos) – Nos avise sobre isso, por favor, para que a gente divulgue. Isso é muito importante, porque é a nossa cultura que está indo para lá. Você vai nos representar.
Renan Simões (Bolsa de Discos) – Exatamente! E em relação às parcerias e gravações, quais são suas perspectivas?
Cleivan Paiva – Quero caminhar bastante com esses parceiros no Brasil, porque eu acho que isso é muito representativo no dia-a-dia do país. Tem a banda do Sonhos do Brasil II, com a qual eu queria circular mais. É um grupo mais instrumental: Cacá Malaquias na flauta, Guilherme Rodrigo na bateria, tem dois vocais, o João Neto ou o [Cláudio] Mappa no baixo. Essa é a banda que eu queria botar pra frente, que faz um resgate de todo o meu repertório.
O show fica mais compacto porque tem também o lado compositor, né? Compositor, como se diz em São Paulo, lítero-musical, quer dizer, a música com voz, com letra. Então, eu tenho esses dois lados, compositor instrumental e compositor lítero-musical. Eu faço poucas letras, geralmente trabalho com parceiros, como o Rogério Franco, daqui de Fortaleza, e tantos outros.
Myrna Barreto (Bolsa de Discos) – Você também produziu música para cinema, em parceria com o Rosemberg Cariry. Como se deu esse processo? Você pensa em voltar a fazer algum tipo de contribuição para o cinema?
Cleivan Paiva – Eu conheci o Rosemberg ainda garoto, foi a primeira pessoa que eu conheci no Ceará, para além dos familiares. Começamos a trabalhar juntos nos festivais do teatro, eu fazia a música e ele fazia a letra. Fizemos várias músicas, e eu gravei várias dessa parceria. Rosemberg e eu somos muito amigos, a gente tem uma carreira desde jovem, e foi através dessas parcerias que ele me convidou para fazer a trilha sonora do filme do Caldeirão [O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto], um filme maravilhoso sobre a história real do beato [José Lourenço]. Rosemberg é muito preparado para fazer as coisas, então ele pesquisou tudo muito a fundo.
Myrna Barreto (Bolsa de Discos) – Como foi esse processo criativo pra você? Foi muito diferente compor para o cinema?
Cleivan Paiva – Foi muito diferente, mas acho que não tive tanta dificuldade por já ser compositor de música instrumental. Há momentos que você tem que fazer a musiquinha mais calminha, não é? Mais educadazinha, senão você não agrada muito. Em algum momento, você tem que dar o lírico na música.
Fiz esse trabalho com muita satisfação e achei o resultado muito bom. Tem algumas coisas você tem que tirar do violão. Por exemplo, em um momento trágico, você não vai fazer uma música bonitinha, você tem que pesquisar isso aí no violão. O americano pega uma orquestra sinfônica cheia de grana, e aí as possibilidades são maiores. Aqui a gente faz no violão, ou dois violões.
Myrna Barreto (Bolsa de Discos) – Você também convidou outros músicos nesse projeto?
Cleivan Paiva – Chamei outros músicos. Eu fiz a música, algumas coisas do violão, aí tinham os músicos que participaram, principalmente um flautista, o que é importantíssimo no trabalho de música nordestina.
Renan Simões (Bolsa de Discos) – Cláudio, quais são seus projetos futuros?
No momento eu tenho me dedicado muito ao ensino, às disciplinas de prática instrumental e à formação de grupos, tanto de cordas graves como de cordas friccionadas no geral. Estou com esse projeto com o Cleivan, que pode ter continuidade, e tenho a ideia de formar um quarteto. A partir desse trabalho do duo pode surgir um quarteto, que incluiria também bateria e saxofone; ainda estamos conversando sobre isso. Tenho intenção de trabalhar, no futuro – a médio prazo, esse ano ainda – com um pequeno grupo de cordas, talvez apenas violoncelo e contrabaixo, e trazer o material de música popular brasileira para esse grupo. É isso aí.
Cleivan Paiva – Pessoal, quero agradecer a vocês. Todo o espaço para a música instrumental é importantíssimo para a gente. Agradeço demais! Eu estou à disposição para vocês, qualquer coisa, lá no Crato.
