O indie rock carioca ganha um novo tempero com o lançamento do primeiro EP homônimo do Madame Salame, power trio formado por Hanna Halm (baixo e voz), Lety Lopes (guitarra e voz) e Juliana Marques (bateria e voz). São cinco faixas lançadas pela Efusiva Records que reafirmam a vitalidade de uma cena que olha para os anos 1990 sem nostalgia paralisante, apostando numa sonoridade direta, crua e honesta — dos instrumentos às palavras.
O nome da banda já entrega o espírito do projeto: despretensioso, pop e cheio de referências improváveis. Madame Salame vem daquele episódio clássico do Popeye em que Brutus se monta de vidente para enganar Olívia Palito. Um pequeno absurdo cultural que resume bem a lógica do trio: misturar referências, rir de si e transformar tudo isso em canção. Coisa de quem viveu um mundo analógico, criativo e menos higienizado por algoritmos.
O EP abre com “Decaf” (Halm), faixa que chega de mansinho e logo vira convite para dançar — rock com cafeína suficiente para acordar o corpo. “Zero a zero” (Halm/Lopes/Marques) segue nessa toada, com clima de pista e letra que dialoga com o futebol sofrido e aquela vida social que promete muito e entrega pouco. Difícil não se reconhecer.
O clima muda em “Corredor de espera” (Halm/Marques), que carrega ecos da banda Tuíra, projeto anterior de Hanna e Juliana. Aqui, o indie ganha contornos mais introspectivos, reforçando a assinatura composicional de Hanna Halm, que já vinha chamando atenção na cena carioca com o Floppy Flipper, equilibrando delicadeza poética e aspereza emocional.
O contraste aparece em “Brilho intenso”, composição de Lety Lopes, que aposta no clássico jogo entre suavidade e peso, marca registrada do indie rock noventista que também atravessa seus outros projetos, como Trash No Star e Visão Turva. O EP se encerra com “DM tinta” (Halm), uma homenagem potente à artista do grafitti Dâmaris Felzke, falecida em 2024. A faixa traduz, em som, a urgência criativa e a efemeridade da arte urbana — rápida, intensa e inesquecível para quem sabe olhar.
Gravado por Vitória Parente e pela própria banda, com mix e master de Leonardo Moreira (Shogun), o EP mantém coerência estética do início ao fim, incluindo capa e contracapa assinadas por Vita Parente. Um trabalho enxuto, mas cheio de identidade.
Formado no Rio de Janeiro em 2024, o Madame Salame faz som animado para gente animada — mesmo quando o rock é triste. Porque, no fim das contas, nada é mais sério do que não se levar tão a sério assim. Um EP para colocar no repeat e acompanhar de perto os próximos passos do trio.
