Fernanda Fialho foi uma daquelas vozes que não cabem só na música, elas viram memórias. Quem frequentou a cena blues de Fortaleza nos últimos anos sabe: quando ela subia ao palco, o blues ganhava corpo e potência, deixava de ser gênero importado e virava coisa nossa, com suor, riso, ferida e beleza. Fernanda cantava com presença. Não era apenas potência vocal: era intenção, era narrativa, era uma forma de olhar para o público e dizer “eu estou aqui com vocês”.
Seu caminho atravessou projetos e encontros que ajudaram a desenhar o mapa do blues no Ceará. Na Vibrato Jam, por exemplo, ela mostrou que tradição não precisa ser prisão: o blues podia se misturar com groove, soul, funk, rock, sem perder a alma, pelo contrário, ganhando novas cores. E quando seu nome aparecia em programações institucionais e festivais, como nas “Divas do Blues (CE)” no Festival Jazz & Blues, isso não parecia “reconhecimento tardio”; parecia o óbvio acontecendo: Fernanda estava onde sempre esteve, no centro da vibração.
E havia ainda um detalhe que muita gente percebia ao vivo ou ao ouvir com atenção: Fernanda não era “apenas” do blues. Ela dominava o canto soprano lírico, com técnica e consciência, e carregava essa formação como um alicerce invisível por trás da entrega. Era como se a disciplina do lírico desse sustentação ao risco do improviso; como se o rigor da respiração, do apoio, do controle, abrisse espaço para que a emoção viesse inteira, sem medo. Essa combinação rara — técnica apurada e verdade crua — fazia dela uma intérprete singular, capaz de transitar por estilos sem perder identidade. Havia também firmeza no ataque das frases e havia cuidado nas pausas. Ela conseguia ser intensa sem ser dura, exuberante sem ser excessiva. Cantava como quem abre uma janela: para dentro de si, e para dentro de quem ouve. A música, na sua voz, virava encontro.
A notícia da sua partida chegou como chegam as coisas injustas: sem pedir licença e deixando um silêncio grande demais. Ainda assim, fica a marca do que ela construiu, em cada show, em cada parceria, especialmente com seu companheiro de vida e de música Roberto Lessa, e em cada noite em que o público saiu diferente do que entrou. Fica a lembrança de uma artista que fez a cena crescer não só com talento, mas com presença: a presença de quem soma, de quem sustenta, de quem acende.
Hoje, Fortaleza e o Ceará perdem uma cantora. A cena perde uma referência. Mas a música e as lembranças, essas teimosas não perdem tudo. Porque a voz de Fernanda Fialho permanece nas memórias que ela ajudou a criar: na família, nos amigos, nas pessoas que descobriram o blues por causa dela, nos seus alunos, nas bandas que dividiram palco com ela, nos lugares que viraram “casa” quando ela cantava. Fernanda Fialho fica.
Descanse em paz, Fernanda. Sua voz segue com a gente.
