Análise

Apesar deste nicho ser incapaz de entregar uma coreografia tão milimetricamente ensaiada como a de Beyoncé no Coachella, todos os caminhos da música pop levam a um só lugar: o escapismo fantasioso que nos permite, por em média três minutos e meio, uma felicidade que nos liberta de nossas inseguranças e da problemática de viver em tempos tão conturbados

Por: Davi Nícolas, especial para o BDD

A The Eras Tour encerrou oficialmente suas atividades há alguns meses como uma das turnês mais lucrativas da história, e apesar da Tree Paine (agente de Taylor Swift) ter conseguido criar uma boa cortina de fumaça sobre os acontecimentos em sua passagem pelo Brasil, uma crítica negativa conseguiu bastante evidência e, vira e mexe, se tornava um dos “comentários virais” em redes sociais movidas pelo ódio: Taylor Swift não é a melhor dançarina, e não está nem aí para ser.

No início dos anos 2000, quando a música pop ficou bem mais definida como um tipo de gênero por questões mercadológicas, os grandes nomes do showbiz seguiam os passos lendários de estrelas como Michael Jackson e Madonna sobre como montar um show. Consequentemente, não existia música pop sem coreografia. Era a forma de dançar que separava um *NSYNC de um Backstreet Boys dentro das boybands, por exemplo. E quem nunca quis ver o rebolado de Shakira e seus quadris incapazes de mentir, que atire a primeira pedra!

Assim, para toda uma geração, é absurdo ver a maior estrela pop do planeta fugindo de coisas que pareciam inerentes à cartilha de “como ser uma popstar” – isso não era literalmente um dos capítulos daquele reality que nos presenteou o Rouge?

É importante, porém, lembrar que esse período também foi marcado por questões bobocas de grande impacto sócio-comportamental dentro da cultura pop, como a rivalidade feminina entre artistas de gêneros diferentes (Avril Lavigne versus Britney Spears, quem lembra?) e até mesmo a obsessão por magreza que categorizou a atriz Jennifer Love Hewitt como gorda apenas por seu formato de rosto.

Se fomos educados que as coisas são de um jeito, quem é Taylor Swift para quebrar o status quo?

Mas se o pop, em sua gênese, é mais um termo guarda-chuva para música popular que uma pedra de Dez Mandamentos, existe mesmo uma regra capaz de definir o que é ou não digno de estar no mainstream?

O gosto continua sendo subjetivo, e embora a expressão de algumas justificativas para o (des)gosto venha com o tom de deboche e anulação de outros fatores importantes para considerarmos o impacto de um trabalho pop E mainstream, te convido a sair de uma cortina de fumaça e enxergar a realidade de um ouvinte de música pop em seu habitat natural: fonezinho nos ouvidos, a vassoura é seu microfone e os móveis de casa, a plateia de um show esgotado.

Dentro desta energia contagiante e privada, todos nós podemos ser pop stars – sendo bons de coreografia ou não. E, convenhamos, a maioria das pessoas não consegue ser boa em repetir passos de dança. Quem vos escreve, por exemplo, demorou mais de dez anos para acertar mais ou menos o passinho do refrão em We’re All In This Together, ato de encerramento do primeiro High School Musical.

E para nós, pessoas comuns e incapazes de entrar no próximo grupo pop global do ex-empresário das Spice Girls, ver a maior artista da cena pop abraçar a estética confortavelmente identificável do ordinário é libertador e empoderador.

Há alguns meses, a Rolling Stone escreveu um artigo maravilhoso que reconhece o impacto cultural da minha artista favorita, Miley Cyrus, evidenciando que muitas garotas dessa geração foram influenciadas pelo sucesso de Hannah Montana no final dos anos 2000. Mas é legal ver, também, o espaço que o pop vem cedendo a mulheres que, assim como Taylor Swift, são intransigentemente ordinárias e incrivelmente boas em entregar as músicas mais divertidas e chicletes do mercado.

É com esse ar de identificação e antecipação que aguardo para ouvir o álbum de estreia de Audrey Hobert, Tears of a Clown, em sua totalidade (ele chega às plataformas digitais em 15 de agosto). O single principal, Sue Me, é um reflexo de todas as coisas divertidas sobre uma garota do country decidir que vai fazer música de boate e se consagra como um grande ato cultural. É infetuoso, grudento e depois de assistir o clipe, tudo que você quer fazer na vida é encontrar um palhaço no escritório do seu trabalho enquanto dança da forma mais constrangedora (e feliz) possível.

Apesar deste nicho ser incapaz de entregar uma coreografia tão milimetricamente ensaiada como a de Beyoncé no Coachella, todos os caminhos da música pop levam a um só lugar: o escapismo fantasioso que nos permite, por em média três minutos e meio, uma felicidade que nos liberta de nossas inseguranças e da problemática de viver em tempos tão conturbados. E é por essa necessidade singularmente humana que o pop se adapta a cada fone de ouvido e nunca sai de moda.