Foto: Fernando Laszlo / Divulgação
Um dos músicos mais originais e irreverentes da música brasileira é o destaque do novo álbum da série Relicário, do Selo Sesc. Relicário: Tom Zé (ao vivo no Sesc 1996), recupera o registro de uma apresentação do compositor, cantor e multi-instrumentista baiano realizada há três décadas no Sesc Pompeia. O álbum está disponível nas principais plataformas de áudio.
O disco documenta um período de intensa atividade na carreira de Tom Zé, que, após anos de menor circulação no Brasil, havia retomado a projeção, com reconhecimento internacional, no início da década de 1990, especialmente a partir do lançamento de The Hips of Tradition (1992), pelo selo Luaka Bop, de David Byrne. O registro traz o resultado de uma fase de pesquisas, experimentações e maior internacionalização do artista baiano.
“O ano anterior [ao registro], olhe, foi uma época que passei toda na Europa – Áustria, Alemanha, Bélgica, Suiça, Paris. Cada passo que eu dava, pedalava num europeísmo qualquer. Às vezes eu não sabia se estava acordando em Irará ou em Hamburgo. Ora no frio, ora no calor”, conta Tom Zé.
O repertório de Relicário: Tom Zé (ao vivo no Sesc 1996) percorre diferentes momentos da trajetória do compositor e evidencia características que se tornaram marcas de sua produção: a mistura entre canção popular e experimentação, o uso não convencional dos instrumentos, aspectos teatrais, além do tom crítico e contestador por meio da sagacidade e ironia em suas letras. Entre as faixas estão Nave Maria, que abria os shows da turnê europeia de 1996, Augusta, Angélica e Consolação, Dois Mil e Um e A Carta, que, como todo o repertório do disco, refletem a criatividade do músico e seu olhar abrangente para os temais que permeiam o cotidiano e a vida social.
“As músicas de Relicário são um pedaço vivo de São Paulo que salta sobre nós. Vivíssimo! Os títulos das canções não deixam a mãe paulista escapar. Pegam a cidade pela saia. Sacodem, e fazem uma roda de samba”, comenta.
A gravação conta com músicos que acompanharam Tom Zé em diferentes momentos de sua trajetória. A relação entre o compositor e seus músicos era parte importante do processo de construção dos shows, marcados por ensaios constantes e pela possibilidade de alterações no repertório durante as apresentações. Em A Carta, por exemplo, a interpretação incorpora sons corporais à composição instrumental, denotando a dimensão cênica e expressiva da obra de Tom Zé. A participação do público era também parte fundamental da inspiração.
“Eu tenho a lembrança da plateia, transformando a cidade num espelho, olhando para si mesma, e para si mesmo. Eu só fazia me jogar nessa roda paulistanamente viva”, completa o músico.
Com Relicário: Tom Zé (ao vivo no Sesc 1996), o Selo Sesc dá continuidade ao projeto que visa a recuperação e valorização da história da música brasileira em sua diversidade, experimentação e criatividade, bem como a preservação e difusão de registros históricos e marcantes de artistas que também constroem a memória do Sesc São Paulo.
FAIXAS
1 – Nave Maria
2 – Ta-Hi (pra você gostar de mim)
3 – Sofro de Juventude
4 – Dói
5 – Jingle do Disco
6 – Um oh! E um ah!
7 – Cademar
8 – Dois Mil e Um
9 – Menina Jesus
10 – USP x GV
11 – A Carta
12 – Ogodô, Ano 2000
13 – Hein?
14 – Augusta, Angélica e Consolação
15 – Sem a Letra “A”
16 – Trem das Onze
FICHA TÉCNICA
Cristina Carneiro – teclado
Gilberto Assis – baixo elétrico
Jarbas Mariz – percussão e voz
Lauro Lellis – bateria
Marco Prado – guitarra
Tom Zé – voz
Gravado no Sesc Pompeia em 5 de novembro de 1996
Masterização: Clemant Zular
Produção Executiva: Neusa Martins
Projeto gráfico: Alexandre Calderero
Comunicação digital: Renan Abreu, Bárbara Carneiro e Sofia Calabria
SOBRE TOM ZÉ
Nascido em Irará (BA), em 1936, Tom Zé é um dos nomes fundamentais da música brasileira e um dos artistas ligados à formação do movimento tropicalista. Estudou na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, em Salvador, onde teve contato com compositores como Hans-Joachim Koellreutter e Ernst Widmer. Na cidade, aproximou-se de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia. Em 1968, participou do álbum Tropicália ou Panis et Circencis, com a canção “Parque Industrial”, e lançou seu primeiro disco, Grande Liquidação. No mesmo ano, venceu o IV Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, com “São São Paulo”.
Ao longo de sua trajetória, Tom Zé desenvolveu uma obra marcada pela experimentação, pelo humor, pela pesquisa de linguagem e pela combinação de elementos da música popular com procedimentos de vanguarda. Entre seus trabalhos estão Todos os Olhos (1973), Estudando o Samba (1976), Com Defeito de Fabricação (1998) e Tropicália Lixo Lógico (2012). A partir do final dos anos 1980, sua obra ganhou maior circulação internacional depois que o músico escocês-estadunidense David Byrne conheceu Estudando o Samba e passou a divulgar o trabalho do artista por meio de seu selo Luaka Bop.
Em 2022, o Selo Sesc lançou Língua Brasileira, álbum que reuniu onze faixas dedicadas à investigação da língua e da cultura brasileiras, em diálogo com o espetáculo teatral homônimo dirigido por Felipe Hirsch. O disco teve direção artística de Hirsch e produção musical de Daniel Ganjaman e Daniel Maia. Em 2026, também pelo Selo Sesc, o músico lança Relicário: Tom Zé (ao vivo no Sesc 1996), fruto do arquivo histórico da apresentação realizada há três décadas no Sesc Pompeia.
Com uma produção que atravessa diferentes períodos da música brasileira, Tom Zé mantém como eixo de seu trabalho a pesquisa sobre as possibilidades da canção, explorando relações entre música, palavra, ritmo, instrumentos e objetos sonoros. Relicário Tom Zé: ao vivo no Sesc 1996 recupera um momento dessa trajetória e amplia o acervo de registros históricos da música brasileira reunidos pelo Selo Sesc.
