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She Bop, por algum motivo, foi esquecida por muita gente no churrasco dos anos 1980. Ainda assim, não só é uma peça fundamental da carreira da artista e da história da música pop: a música também contribuiu para abrir espaço ao debate sobre algo tão comum na vida de tantas pessoas, mas que ainda é tratado como tabu quando se trata da sexualidade feminina

Por: Redação

Alguns anos atrás, escrevi um desabafo no Facebook sobre o quanto me incomodava o fato de Cyndi Lauper não ter seu body of work devidamente reconhecido pela mídia especializada. É como se ela não tivesse lançado nada além de Girls Just Want to Have Fun. O próprio She’s So Unusual, álbum do qual a faixa faz parte, guarda outras pérolas — o mesmo pode ser dito de toda a discografia da artista —, o que torna frustrante perceber que apenas uma música receba tanta atenção.

Uma delas é She Bop, que, no LP brasileiro, ficou conhecida como Ela Dança o Bop (alguns discos importados traziam traduções dos títulos das músicas na contracapa). Quinta faixa do disco acima mencionado, a canção aborda, de maneira subjetiva, a masturbação feminina. É preciso conhecer um contexto específico para compreender sua mensagem: Cyndi queria que a música parecesse tratar de algo trivial para os ouvintes mais jovens e, ao mesmo tempo, carregasse um significado especial para os adultos.

“As crianças vão ouvir e pensar que é algo sobre dança. Quando crescerem, perceberão o que eu quis dizer e rir um pouquinho. Isso dá uma dimensão nova para a música e aprofunda a relação com ela”, conta.

“Um dia, Steve Lunt — com quem escrevi a música — me ligou um pouco embriagado e disse: ‘Cyn, você tem que vir aqui porque quero que escreva uma música sobre masturbação. Nenhuma mulher fez isso até então’”, relembra Cyndi. “Eu aceitei, mas fiz com que ele fosse comigo a uma banca comprar uma revista feminina. Havia a Playgirl, mas essa era meio… entediante. Aí encontramos a Blueboy, que, naquela época, na minha ignorância, pensei ser uma revista para mulheres — e não era.”

Blueboy era uma revista erótica gay cujas capas geralmente apresentavam modelos de sunga ou sem camisa. Sua última edição foi publicada em 2007. Em suas letras, Cyndi costuma incorporar elementos da vida real — algo que pode ser observado de maneira ainda mais evidente em That’s What I Think, do álbum Hat Full of Stars —, razão pela qual a revista aparece no primeiro verso de She Bop.

“Senti que era algo necessário de se falar porque vejo que a sociedade tenta esconder isso das mulheres e, na verdade, não pode. É algo que está dentro da gente; todos temos sexualidade.”

She Bop foi gravada em um quartinho onde ninguém podia vê-la, apenas ouvi-la. Sentindo-se livre dessa vigilância, Cyndi chegou a tirar a roupa e ficar seminua durante a gravação. “É por isso que há risadas na música, eu estava cutucando a perseguida”, conta.

Ao participar do programa Good Sex, um ano após o lançamento do álbum, a cantora falou publicamente sobre o significado da letra pela primeira vez. Embora fosse um programa claramente direcionado ao público adulto — o que, teoricamente, lhe garantia liberdade para abordar aquele tipo de assunto —, sua declaração acabou tirada de contexto e exposta a uma audiência que ela não esperava, graças à repercussão na mídia conservadora.

“Fiquei com muita raiva porque fiz de tudo para nunca falar sobre ‘me tocar’, para as crianças não descobrirem. E aí fui descoberta graças à minha boca grande.”

O resultado? She Bop e outras quatorze músicas foram incluídas em uma lista chamada Filthy Fifteen. Criada pelo Parents Music Resource Center (PMRC), organização que surgiu nos anos 1980 com o objetivo de ampliar o controle de pais e mães sobre músicas consideradas de conteúdo adulto, a lista ajudou a impulsionar o debate que culminaria na adoção do selo Parental Advisory em álbuns musicais. O PMRC encerrou suas atividades em meados dos anos 1990.

Embora tenha sido produzido antes de toda a polêmica, o videoclipe da música acabou se tornando uma ótima crítica ao episódio. Nele, Cyndi é vista “se tocando” e dando em cima de um homem. Em seguida, é perseguida por um grupo de senhoras chamado “Esposas Suburbanas Contra Transgressores” e levada como prisioneira. Julgada pelo “Big Bopper”, um policial careca e de aparência ameaçadora, ela consegue se libertar logo depois — afinal, “não há lei contra isso ainda”, como diz a música.

Ao final, em referência ao trecho em que canta que “é melhor parar, senão vou ficar cega”, a cantora aparece dançando com várias pessoas usando óculos redondos e escuros, como pequenos ratinhos cegos.

She Bop, por algum motivo, foi esquecida por muita gente no churrasco dos anos 1980. Ainda assim, não só é uma peça fundamental da carreira da artista e da história da música pop: a música também contribuiu para abrir espaço ao debate sobre algo tão comum na vida de tantas pessoas, mas que ainda é tratado como tabu quando se trata da sexualidade feminina.

Parafraseando o encerramento do clipe, “nas palavras de François de La Brioskée: todo mundo faz”. E está tudo bem.