Com mais de 37 mil ouvintes mensais somente no Spotify, Monik já é um nome conhecido por quem habita o lado mais divertido da internet. A artista de 26 anos esbanja uma personalidade despretensiosa e debochada, moldada pelos sonhos de fama de quem passou a infância fazendo shows no próprio quarto. Ao mesmo tempo em que levanta a bandeira do humor em sua obra, Monik assume sua faceta girlboss, equilibrando a autenticidade da sua arte com as exigências da indústria musical brasileira. Em entrevista exclusiva ao Bolsa de Discos, ela faz um balanço da era Fubanga Pop, fala sobre o novo single Amigo Gay e os próximos passos de sua trajetória no pop brasileiro.
BDD: Monik, quando você descobriu que queria ser uma cantora?
Monik: Desde criança, quando perguntavam “o que você quer ser quando você crescer?”, eu falava cantora. Acredita?
BDD: Como foi gravar sua primeira música?
Monik: Foi uma alegria. Eu estava muito animada. Falava, “é amanhã, amanhã, amanhã”… no dia que fui gravar, o produtor falou “nossa, mas você canta muito baixo”. Realmente, depois a música saiu e ninguém entendeu o que eu cantei, a letra mesmo. Tive que lidar com a dicção na música. É tudo um aprendizado. Já tinha me apresentado cantando, tinha subido em palcos cantando, mas quando a gente vai gravar é outra vibe, é outra coisa. Mas assim, a sensação mesmo foi de felicidade extrema.
BDD: Você sempre se imaginou como uma artista pop ou isso foi uma coisa que aconteceu naturalmente?
Monik: Minha cabeça sempre foi pop. Mas no próximo álbum, a gente vai misturar o pop com o rock, que é a segunda vertente que eu mais consumo. É o meu berço, é a minha família que gosta de rock, todo mundo. Minha cabeça é pop e rock, entendeu? Óbvio que o pop sempre foi o máximo, mas o rock vem em segundo, é o berço também.

BDD: Como você definiria a Monik pra alguém que ainda não conhece o seu trabalho?
Monik: O meu trabalho envolve muito humor, e por isso falo que as pessoas às vezes não entendem o meu trabalho. Elas perguntam se minha carreira é séria, e eu respondo que estou aqui lançando músicas e fazendo clipes. Vocês não entenderam ainda que sou cantora? Tem muito esse preconceito com a comédia dentro da música, mas a comédia também é arte, né? Tem uma artista pop recente chamada Audrey Hobert que me vejo muito nela. A Sabrina Carpenter também faz músicas com essa pegada… mas tem gente que fala que minha música parece paródia. Fico assim, “amor, eu tô aqui com o gogó aveludado e você falando que parece uma paródia? Pare agora”.
BDD: Você falou que tem uma das suas grandes referências a Audrey Hobert, mas tem alguma outra artista que influenciou diretamente a sua carreira?
Monik: A Hannah Montana, com certeza todas da Disney… eu era uma Disney girl. A Kelly Key também é uma inspiração para mim. Ela tem tudo a ver com o meu trabalho, inclusive meu sonho é fazer um feat com ela. Acho que se fizer o feat com ela, vou zerar o game, porque tem tudo a ver. Ela é uma das mães do pop brasileiro, né? Então, tipo assim, máximo respeito. Demais. E ela é muito essas divas pop que canta meio falando, algo que trago muito pra minha sonoridade também. Tá muito em alta ultimamente, né? A Charli XCX tem feito muito. Muitos artistas fazendo. E gosto dessa vibe meio rap, diva pop que faz um rapzinho ali na música e depois volta.
BDD: Como você conseguiu criar sua persona pública?
Monik: Foi um processo meio difícil. Pensei, “o que uma cantora de pop precisa fazer?” Precisa dançar, cantar com a voz aguda, fazer aquela coisa hiper feminina e tal. E aí venho desconstruindo isso. Não sou a Britney Spears, sabe? Tipo, eu sou eu, entendeu? Eu venho nesse álbum, nessa nova era… A diferença é que agora estou diferente mesmo, não só de visual, mas até como canto. Resolvi cantar numa região vocal ali mais médio grave, onde sinto mais conforto. Parei de ter essa “pira” de me encaixar num molde pop. E quero criar o meu pop. O que é o pop Monique? O que a Monique traz de diferente pro pop, sabe? Então venho com essa proposta. Gosto muito do que eu faço, de não se levar a sério demais, e vejo muito conforto nisso, de escrever uma música zoando. Me Perseguindo, Amigo Gay… me divirto no processo. Também tenho pensado em coreografias que traduzem quem sou e a música ao invés de fazer algo para impressionar, me provar como artista. Tipo assim, vou cantar do jeito que quiser, vou dançar do jeito que quiser. E é isso.
BDD: Existe uma diferença entre a Monik que os fãs conhecem e a Monik que os seus amigos mais próximos conhecem?
Monik: Não muito. As duas Moniks têm as mesmas características, só que a Monik que os meus amigos conhecem é um pouco mais calma, devagar. A que os fãs conhecem é mais… expansiva. Sou a mesma, só que quando tô trabalhando, busco chamar um pouco mais de atenção. Poxa, eu sou artista, preciso chamar atenção! E aí, quando tô num ambiente de lazer, de descanso, não vou ficar ali tentando chamar atenção. Eu vou ficar quieta no meu canto, entendeu? Sou um pouquinho mais quieta na minha vida. Mas se for lá mexer comigo, vou ser a mesma pessoa.
BDD: Qual o seu momento favorito da era Fubanga Pop?
Monik: Acho que Diva do Interior foi um grande momento, porque ele gerou uma repercussão enorme. Um monte de famosos usando a música, as coisas acontecendo, recebendo toda aquela atenção. Foi bem legal. Na época, eu não tinha prestado atenção que a música estava indo bem, porque era a segunda música que eu lancei na vida. Foi bem divertido.
BDD: Uma das coisas mais legais dessa era foi justamente o pocket show que você registrou e publicou no encerramento. Uma das coisas que chama atenção é o nível da entrega. Como foi o processo de idealizar este momento?
Monik: Realmente foi um dos maiores momentos da minha carreira. Fiz tudo tratando como a grandiosidade que era. Falei, “cara, vai ter 10 mil pessoas ali me assistindo, sabe? Vamos entregar um negócio bem legal”. Juntei as dançarinas e a gente ensaiou bastante. Também trouxe uns dançarinos novos, que são de break. Foi um dos pontos altos do show, porque como eles fazem muitas piruetas, a plateia ficou em choque. Achei que ia ficar com medo, mas fiquei tão feliz de ver que encarei uma plateia de 10 mil pessoas no maior sangue frio, sabe? Querendo ou não, o talento não é algo que a gente nasce com, a gente tem que desenvolver. Lembro do primeiro show que fiz, pra mil pessoas… nossa! Eu não consegui fazer nada! Hoje estou num lugar que gosto bastante. Como sou uma artista muito recente, as pessoas têm acompanhado o meu crescimento junto comigo. Tenho uma equipe legal. Então, esse show que você tá falando, os figurinos estavam muito lindos, né? A Niel fez. O telão tava muito lindo… tava tudo muito lindo. Foi um momento enorme na minha carreira.
BDD: Já aconteceu alguma coisa que você achou que seria um fracasso e acabou dando muito certo?
Monik: Sim, Diva do Interior (risos)! Tanto é que nem tem clipe direito, só um visualizer. Jamais achei que Diva do Interior ia virar o que virou. Jamais. Mas por exemplo, Amigo Gay eu achei que ia dar certo realmente deu, e está dando. Pelo menos tem gerado bons números. Então, às vezes a gente erra, mas às vezes acerta também.
BDD: Amigo Gay foi lançada no final de agosto. Como foi acompanhar a relação das pessoas quando a música saiu? E podemos considerar esse o começo da sua nova era?
Monik: Sim, esse é o lead single do meu primeiro álbum, então é o início da minha nova era. E o desempenho dessa música é o melhor que já tive até hoje. Ela entrou em playlist do Spotify, isso nunca tinha acontecido comigo. E pra você ter noção, a música começou na posição 50 da playlist Funk Pop no Spotify, e hoje em dia está em quinto lugar! Estou em choque. O clipe também é um dos maiores que eu já lancei, as pessoas gostaram bastante. A gente fez com uma produtora de cinema, um equipamento enorme. Muita gente envolvida, muita gente mesmo.
BDD: Ainda sobre Amigo Gay, como você consegue transformar momentos de sua vida pessoal em algo artístico e cômico? Você percebe a identificação do público?
Monik: Muita gente fala, “nossa, eu vivi isso”. Pessoas que viveram de formas diferentes. Às vezes, homens gays que achavam que não eram gays, aí foram ficar com a mulher e descobriram que eram gays… teve uma mulher que era casada com um homem, aí depois o cara se descobriu gay. Imagina, complicado. Acho que o meu caso foi mais de boa, foi só uma noite ali… Sobre como tive a ideia de transformar em música, comecei a contar para as pessoas a situação que aconteceu comigo e a reação delas era muito grande. Aí eu falei, “tenho uma história grande aqui, com potencial para ser contada”. É uma história divertida, leve, que combina com a minha música.
BDD: Seu clipe foi idealizado pela sua irmã. Ela sempre assina alguma parte da produção dos seus outros clipes também. Qual a melhor parte de trabalhar com a Duda?
Monik: A melhor parte é que ela é minha irmã. A gente tá na mesma casa e aí temos essa troca muito genuína. Dá pra ver quando ela se anima com o projeto. Mostro uma música nova pra ela e ela fala, meu Deus, que música massa, eu já tô vendo isso, tô vendo aquilo no clipe. A Duda já fez quatro clipes pra mim. Ela é diretora dos meus clipes e ajuda também a roteirizar, ela edita os clipes também… falo que ela é a doida do chroma key. A vibe dela é mistura de linguagens, colocar umas coisas lúdicas no meio. Acho isso muito legal, e enriquece muito. Os fãs já falam que “se tem a Duda, já sei que vai ser bom”. Ela está presente em todas as etapas junto comigo, para garantir mesmo que o resultado saia impecável. É um profissionalismo enorme.
BDD: Já teve algum momento em que você pensou em desistir?
Monik: Todos os dias. É uma carreira muito cara. As pessoas falam que arte é para rich kids, para crianças ricas, e eu concordo plenamente. A pessoa que quer viver de arte tem que ter dinheiro, cara. Atualmente, consigo ter uma verbinha porque ganho dinheiro com publis, porque eu tenho uma rede social aí com bastante seguidores, movimentada. É dessa forma que consigo movimentar a minha carreira musical. Mas é aquela coisa muito limitada. Para gravar um clipe, lançar um álbum, é muito gasto, é muita equipe, é muita gente. Minha sorte é que tenho muitas parcerias, pessoas que acreditam em mim, amigos que falam assim, “eu vou te ajudar mesmo, fazer na moralzinha pra você porque sei que você vai ser grande”. Aí vai dar certo da gente crescer juntos. Atualmente, a minha situação artística é essa. A questão de constância também… hoje em dia, para lançar uma música, o que é considerado o ideal para o mercado é você lançar uma música de 30 a 45 dias de distância, e eu não consigo fazer isso porque sou perfeccionista demais. Não quero lançar qualquer coisa só para ter um lançamento rápido. E passou de 30 dias, passou de 40 dias, o seu lançamento já é antigo. Essa semana ouvi uma menina falando [que Amigo Gay] já está antiga. Gente, eu lancei faz duas semanas! Acho muito louco, e isso foi um dos maiores choques que eu tive com a carreira musical, do quanto que a gente tem que industrializar uma arte. Uma coisa que me chocou muito é que para TikTok tem que ser músicas rápidas, trechos rápidos. Já me juntei com músicos em estúdios que [diziam que] essa introdução [tem que cortar] pela metade, que isso aqui tem que ter tantos segundos, porque no TikTok é assim. Os músicos estão com essa mentalidade. A gente acha que é a gravadora, a galera do marketing… mas não, as pessoas estão com a cabeça de TikTok. Desde os músicos até eu mesma também. Vou escrever pensando no TikTok também. É uma coisa realmente industrializada. Às vezes eu nem terminei de escrever a música e já tô pensando no marketing, no business. Hoje em dia eu já me acostumei, mas é uma coisa que eu não imaginava que era desse jeito. Passo a maior parte do dia resolvendo papelada, fazendo planilha de marketing, de divulgação, de estratégia. Eu sou mais uma gestora, uma publicitária do que uma artista. No final das contas, o tempo que eu passo cantando é minúsculo.
BDD: Como você mencionou a questão da linha do tempo para o lançamento de músicas atualmente, podemos assumir que você já está trabalhando no sucessor de Amigo Gay?
Monik: Sim. Como falei, aquele prazo de 30 a 45 eu não consigo, não esperem isso de mim. Demoro um pouquinho mesmo, as minhas músicas normalmente têm de distância uns dois meses de distância [entre um lançamento e outro]. Mas sim, eu estou preparando uma música para o final do ano, e minha aposta é que ela também vai fazer parte do álbum. Estou estudando. Inclusive já estou entrando em contato com a galera para a gente fazer orçamentos e ver como que a gente vai viabilizá-la.
BDD: E sobre o seu álbum de estreia, já temos uma data de lançamento?
Monik: Ainda não tenho certeza da data, e ele ainda também não está finalizado. Mas será no ano que vem.
BDD: Qual foi o maior desafio que você enfrentou até aqui como artista?
Monik: Acho que além do financeiro, o que me chocou muito quando eu comecei a ser artista é que eu estava muito preparada para o hate. Na internet a galera vai xingar mesmo, isso eu estou completamente ciente. O que não estava ciente é que as pessoas na vida real iriam agir da mesma forma. Fiquei chocada com isso. Achei que eu teria um apoio maior. Na minha família, óbvio que eu tive um apoio enorme, graças a Deus. Muito artista não tem, mas de pessoas que às vezes se diziam amigos, pessoas do convívio que estavam ali perto, que começaram a caçoar, a me tirar para louca. Só foram dar valor quando começou a dar certo. Fiquei, “entendi. Quando estava tentando não tinha valor, mas quando dá certo, quando eu consegui fechar uma primeira publi enorme… agora você pode falar comigo,olhar no meu olho, me dar os parabéns”. A pessoa com dinheiro tem valor, reconhecimento. Fiquei chocada com a falta de percepção de pessoas que estavam próximas. Me choquei com muita gente.

BDD: Como você lida com o fato de que as pessoas que você nunca conheceu pessoalmente têm opiniões às vezes tão fortes sobre você?
Monik: Na verdade, sempre enxergo aquela pessoa como uma pessoa que eu também não gostaria de ser amiga. A pessoa às vezes nem me conhece e tá querendo falar mal. Mas tem a galera que fala também, que conhece meu trabalho e fala com propriedade. Aí eu falo assim, nossa, realmente, você está falando mal do meu trabalho com propriedade, então vou parar aqui para ouvir um pouco. Sou muito essa pessoa, tipo, “me dá esse feedback, vamos lá”.
BDD: Como você se vê daqui a cinco anos?
Monik: Daqui a cinco anos eu me vejo em São Paulo. Sabe que me vejo fazendo mais shows do que eu faço atualmente? É o que estou buscando, me consolidar um pouquinho mais nesse mercado dos shows. Atualmente eu [já faço shows], mas é uma quantidade muito pouca. Estou com uma equipe nova que está empenhada nisso. Pretendo estar com dois álbuns lançados, então vou estar com bastante repertório e hits! Pretendo estar com mais hits e fazendo shows onde as pessoas vão cantar várias músicas comigo.
BDD: Se você pudesse escolher um palco do mundo para se apresentar amanhã, qual seria?
Monik: Seria um palco no Brasil, obviamente. Um Rock in Rio… tenho muita fome disso. Um Lollapalooza, uma coisa assim bem grande. Um Allianz Parque. Tenho todos esses sonhos e um dia vou conseguir [realizá-los].

BDD: O que falta para você conquistar?
Monik: Preciso conquistar uma carreira sólida. Estou num estágio sustentável, mas quero alcançar uma carreira mainstream. Quero ter uma agenda lotada de shows. Quero ter minha equipe bem estruturada… Atualmente, trabalho com equipe por projeto, não tenho uma fixa. Estou vendo de me mudar para São Paulo, porque lá as coisas acontecem. E também queria trazer um conforto… o meu sonho mesmo é ganhar dinheiro para falar assim, “mãe, você nunca mais vai precisar trabalhar”. A minha mãe trabalha desde criança, teve uma vida muito sofrida e ela trabalhava na roça. Então o meu maior sonho mesmo é dar isso pra minha mãe através da minha carreira. Viver do que eu gosto, viver da minha arte e proporcionar coisas pra ela, pra minha família.
