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Em bate-papo na Casa de Francisca, líder dos Racionais MC’s falou sobre eleições, esquerda, bolsonarismo e os rumos da política no Brasil

Por: Redação

O rapper Mano Brown, líder dos Racionais MC’s, participou de um bate-papo na “Casa de Francisca” e aproveitou o encontro para fazer uma reflexão sobre o cenário político brasileiro, as próximas eleições e os caminhos percorridos pela esquerda ao longo dos últimos anos.

Durante a conversa, Brown questionou a relação entre ideologia e exercício do poder e afirmou que a permanência prolongada no comando teria contribuído para o enfraquecimento de determinadas bases políticas.

O próprio poder enfraqueceu a ideologia”, declarou o rapper.

Brown contou que a discussão sobre uma possível alternância política já fazia parte de suas conversas há mais de uma década. Segundo ele, chegou a abordar o assunto com o senador Eduardo Suplicy, questionando se não seria necessário que o campo progressista considerasse abrir mão do poder em determinado momento.

Ao comentar o cenário atual, o artista criticou o que chamou de lógica de manutenção do poder. “Essa coisa de manter o poder, a manutenção do poder, custou o poder, custou a base”, afirmou.

Na avaliação apresentada por Brown, a concentração dos esforços políticos na tentativa de manter um determinado grupo no comando não resolveria questões estruturais do país. Nesse contexto, ele questionou: “Vamos lutar para manter o Lula, e depois? O Brasil vai continuar sendo o Brasil”.

“Medo de criar um monstro”

Brown também falou sobre as consequências que, em sua visão, podem surgir a partir do atual ambiente de polarização política. Ao abordar uma eventual nova vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva, o rapper declarou ter receio de que o resultado contribua para ampliar ainda mais a tensão entre diferentes setores da sociedade.

Eu particularmente tenho medo de criar um monstro se o Lula ganhar de novo, só vai encher o balão de mais ódio, está crescente esse movimento aí”, disse.

A declaração foi feita no contexto de uma análise sobre o crescimento do discurso político associado à extrema direita e ao bolsonarismo nos últimos anos.

O rapper também avaliou o período do governo de Jair Bolsonaro e afirmou que, em sua visão, a população não teria tido tempo suficiente para formar uma percepção consolidada sobre a gestão do ex-presidente.

Segundo Brown, Bolsonaro poderia ter deixado o governo com uma rejeição maior caso tivesse permanecido mais tempo sob avaliação da população. “Ele saiu rápido, o povo nem teve consciência que ele foi um mau presidente”, afirmou.

Ao explicar sua leitura sobre o período Bolsonaro, Brown destacou ainda o impacto da pandemia de Covid-19 e do volume de informações que circulava naquele momento.

Para o rapper, a pandemia acabou interferindo na maneira como parte da população percebeu as ações e os resultados do governo. Ele também criticou o excesso de informações que tomou conta do debate público, incluindo conteúdos produzidos por setores da própria esquerda.

Metralhou de informações para todo lado disputando o senso crítico de todo mundo”, afirmou.

Na visão apresentada por Brown, esse excesso de mensagens e disputas narrativas contribuiu para transformar a discussão política em uma espécie de guerra permanente pelo senso crítico da população.

As declarações do líder dos Racionais MC’s refletem uma leitura crítica sobre diferentes setores do espectro político brasileiro. Ao longo da conversa, Brown não restringiu suas observações a um único campo, mas colocou em discussão temas como alternância de poder, manutenção de governos, polarização, circulação de informação e a relação entre política institucional e sociedade.

O bate-papo na Casa de Francisca amplia, assim, uma característica já presente na trajetória pública de Mano Brown: a utilização da música e da cultura como ponto de partida para discutir questões sociais e políticas que atravessam o cotidiano brasileiro.