Quase duas décadas após seu lançamento, o álbum Vanguart (2007), estreia da banda mato-grossense, será lançado pela primeira vez em vinil. Reconhecido pela Folha de S.Paulo como um dos 50 discos que ajudaram a formar a identidade da música brasileira nos anos 2000, o trabalho ganha uma nova edição em LP, acompanhada de livreto com letras e textos inéditos, além de capa dupla e cartão-postal.
Lançado originalmente em CD, o disco marcou o início da projeção nacional do grupo formado, à época, por Hélio Flanders (voz e violão), Reginaldo Lincoln (baixo e voz), David Dafré (guitarra), Luiz Lazzarotto (teclados) e Douglas Godoy (bateria). Desde então, a banda passou por mudanças de formação — apenas Helio e Reginaldo seguem desde o início — e consolidou uma trajetória que inclui novos álbuns, turnês e reconhecimento da crítica.

Para Helio Flanders, revisitar esse repertório também significou reencontrar uma parte importante da história do grupo. “Esse disco ficou fora das plataformas até este ano. É como se a gente tivesse omitido uma parte da história”, afirma. “Nos surpreendemos ao reescutá-lo, porque muitas vezes a gente olha para o passado e fica um pouco envergonhado, mas não foi o caso. A gente tem muito orgulho dele.”
A origem do álbum remonta aos primeiros anos da banda em Cuiabá (MT). Em um contexto em que o sertanejo predominava na cena local, o Vanguart apostava em uma combinação de folk, rock e referências latino-americanas. Antes mesmo do lançamento do disco, o grupo já havia chamado atenção nacional com a música “Semáforo”, exibida na programação da MTV.
Sem recursos para gravar um álbum, os músicos recorreram a editais e ao apoio de instituições culturais. “Nós atirávamos para todos os lados que podíamos, porque não tínhamos condições financeiras de gravar um álbum”, lembra Helio. “A gente ia bater na porta do secretário de Cultura com os jornais, mostrando as matérias que tinham saído e as cidades onde já tínhamos nos apresentado.”
Com apoio da Secretaria de Estado de Cultura de Mato Grosso e da Secretaria Municipal de Cultura de Cuiabá, a banda gravou as 14 faixas do álbum no Estúdio Inca, na capital mato-grossense. Produzido por Thiago Marques, o disco reúne composições escritas majoritariamente por Helio após uma temporada na Bolívia, onde viveu entre os 17 e os 18 anos. Reginaldo Lincoln assina a faixa “Beloved” e divide a autoria de “Miss Universe” e “Los Chicos de Ayer”.
Concluída a gravação, ainda restava viabilizar o lançamento. A oportunidade surgiu por meio da revista OutraCoisa, publicação criada por Lobão que, entre 2003 e 2008, distribuía um CD inédito junto a cada edição. O convite fez com que o álbum chegasse às bancas de todo o país, alcançando uma tiragem de cerca de 16 mil cópias.
“De repente, o disco estava circulando no Brasil inteiro”, recorda Helio. “Foi meio que um milagre vencer as adversidades de ser uma banda de Cuiabá, sem dinheiro, cantando em três idiomas, e todos os jornalistas falando: ‘Vocês estão loucos, isso nunca vai dar certo’. Não sei se deu certo no sentido que eles imaginavam, mas deu certo reunir a força que uma banda precisa para existir.”
A edição em vinil revisita um disco que marcou o início da trajetória do Vanguart e permanece como um dos registros mais representativos da produção independente brasileira dos anos 2000. O lançamento já está em pré-venda pela NRC+ e oferece ao público a oportunidade de incorporar à coleção um álbum que ajudou a contar a história da música brasileira recente em um formato inédito.
