A expectativa era grande. Beto Guedes, um dos meus grandes ídolos e responsável pelo meu álbum favorito da música brasileira estava para chegar a qualquer momento. A hora do show se aproximava, e além de nós haviam muitos fãs com LPs em punho, na esperança de conseguir autógrafos e fotos. A assessoria do artista foi muito sensível aos presentes e permitiu que todos, com a devida agilidade, tivessem uma mínima parcela de tietagem junto a Beto. Foi um momento leve e inesquecível.
Em meio à correria, não conseguimos almejada entrevista, mas o artista comentou brevemente sobre esse momento de celebração da carreira, após tantos discos, encontros, parcerias e amigos na música. Reforçou também a importância histórica do festival de Guaramiranga, do qual ficou muito honrado e feliz de participar e ser homenageado.

No palco, após o momento da homenagem, o artista começou com tudo, com Balada dos quatrocentos golpes, composição de Luiz Guedes (primo de Beto) Thomas Roth e Márcio Borges, onde já ficou evidente o som redondo da banda e a voz rebeldemente afinada de Beto – junto à sua bonita e sentida performance à guitarra. A banda contou com Ian Guedes (filho do artista) na guitarra, Will Motta nos teclados, Adriano Campagnani no contrabaixo e Cyrano Almeida na bateria. A seguir, fomos presenteados com as quebradeiras rítmicas de Canção do Novo Mundo, parceria do artista com Ronaldo Bastos.
Espelhos d’água (composição de Dalto e Claudio Rabello) foi a única canção mais “recente” do setlist, registrada em 1999, em meio a um repertório que focou na fase áurea do artista – entre o final dos anos 70, quando iniciou sua carreira solo, e meados dos anos 80. Esta e a seguinte, a esplendorosa Nascente – que contou com uma versão mais movida -, tiveram grande participação em coro do público, o que se repetiu por diversas vezes ao longo do show.
A música Gabriel (Guedes e Bastos) nunca me desceu, mas não deixa de soar fofinha, e consistiu em um momento introspectivo agradável, com solos de Guedes e do baixista. A breguíssima Quando te vi (versão de um cover dos Beatles) é maravilhosa, e levou o público ao delírio. Entretanto, a grande surpresa do show foi a interpretação da tocante Canção da América (unencounter), de Milton Nascimento e Fernando Brant.
A esta veio colada Lumiar (Guedes e Bastos), uma grande favorita minha com pegada rockeira forte, e as emblemáticas Sol de primavera (Guedes e Bastos) e Maria solidária (Milton e Brant). Nas três, o artista optou por melodias alternativas em regiões mais graves, poupando, sabiamente, possíveis constrangimentos de não entoar bem as notas que não mais consegue alcançar com precisão. Em Feira moderna, os outros integrantes da banda também realizaram as partes vocais, o que proporcionou cores e possibilidades bem interessantes. Beto aproveitou para homenagear Lô Borges, falecido em 2025, parceiro nessa canção junto a ele e Fernando Brant.
O público voltou a ter participação bastante ativa nas duas músicas “finais”, parcerias riquíssimas entre Guedes e Bastos: Amor de índio e Sal da terra. Com uma carreira permeada de destaques, mesmo após essa sequência impecável de canções, ainda haviam outras guardadas para o bis: Cantar (de Godofredo Guedes, pai do artista; Beto sempre contemplou composições de seu pai em sua obra discográfica), Lágrima de amor (Luiz Guedes e Márcio Borges) e Paisagem da janela (Lô Borges e Fernando Brant).
Em um show permeado por hits memoráveis e atemporais, Beto Guedes e banda misturaram rock, sensibilidade pop e imaginário popular de uma forma muito especial e inesquecível, deixando o público em deleite do início ao fim do espetáculo.
